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segunda-feira, fevereiro 16, 2004
 
Observando o post abaixo, alguns dos meus leitores poderão pensar que estou a inventar a pólvora; de certeza que não será o "Manifesto Anti Dantas" que precisa de mais uma defesa? Outros poderão perguntar porquê insisti tanto nas partes dos insultos, se na verdade existem também no texto passagens muito lúcidas.

Resposta: O texto abaixo é o fruto directo de uma discussão que tive com uma amiga, e por isso mesmo bate mais nos pontos em que as nossas diferenças de opinião se manifestaram; talvez por isso mesmo, o meu texto está longe de ser uma análise justa e completa do "Manifesto Anti-Dantas". Postei aqui porque gostei do primeiro parágrafo e porque tenho dado menos atenção a este lugar do que merece.


 
Não ponho de parte a ideia de que uma obra de arte pode ser moralmente desprezível; creio que existe uma certa moral na arte, mesmo que seja impossível de definir exactamente como funciona. De qualquer modo, será escusado dizer que a moral da arte, seja ela qual for, não é idêntica à moral da vida. Procuramos na arte montes de características que, na vida real, tentamos evitar; gostamos de violência, de crueldade, de tragédia, de ódio, de raiva, de cobardia, de lágrimas (o que não exclui que também gostemos de paz, de bondade, de finais felizes, de amor, de alegria, de coragem, de riso). Sinto-me completamente confortável usando aqui a primeira pessoa do plural: qualquer lista de sucessos comerciais de televisão, música ou literatura, bem como os consensos críticos sobre qualquer arte, dão-me razão; é uma das poucas áreas em que o público e os críticos não são muito diferentes: o cineasta aprecia o banho de sangue no fim de ”Táxi Driver” como os grandes públicos apreciam o último thriller comercial; o crítico de música ouve os assassinatos melódicos de Nick Cave tanto como o ouvinte regular se delicia com as gritarias dos Slipknot. E nem pensem que é só nestes exemplos extremos que a falta de moral real é visível: desde as personagens de romances de literatura lite até aos maiores clássicos da literatura existencialista, desde Frank Sinatra até David Fonseca, desde ”A Bela Adormecida” até à Bíblia, encontramos sempre na arte comportamentos que, na vida real, seriam intoleráveis mas que, dentro do seu contexto, nos fascinam.

Sendo então que dentro da sua obra, um artista pode ser maldoso, brutal ou cruel, sem que por isso o odiemos, seria certamente ridículo pensarmos que este se deveria sentir obrigado a cumprir outras regras do convívio humano. Na vida real, vejo pouco sentido em atacar os gostos das pessoas: faço-o regularmente na forma de humor, é claro, e para aqueles entre nós que gostam de discutir sobre o assunto, não há razão para não o fazer, mas no fim do dia, é preciso manter em mente que a arte é uma experiência tão subjectiva que seria palermice condenar uma pessoa por gostar de um determinado livro, ou por não gostar de um determinado disco.

Isto na vida real.

Não acho que qualquer artista tenha a obrigação de respeitar esta regra dentro da sua arte, e creio até que seria fatal se o fizesse. Dizer que tudo é relativo, que os gostos não se discutem, dentro de uma obra de arte tem um sabor deveras enfadonho: se não há batalhas a ganhar, para quê observar a luta? Se o autor não está convicto de que a sua obra é Boa (no sentido de qualidade, não de moral), ou pelo menos que está do lado certo, qual será o seu interesse?

Convêm portanto nunca esquecer que no ”Manifesto Anti-Dantas”, não se assiste à luta entre o homem Almada Negreiros e o homem Júlio Dantas, mas sim entre o artista Almada Negreiros e o artista Júlio Dantas. A raiva que percorre este documento não se direcciona a nenhum indivíduo real, mas sim a um símbolo, neste caso o símbolo do romantismo conformista que o modernista Negreiros pretendia destruir. O que na vida real seria uma série de insultos infantis, como peça de arte tem características muito diferentes…

O ”Manifesto Anti-Dantas” é um grito de indignação, a força de um novo movimento e a frustração de quem vê este movimento a ser derrotado pelo conformismo e conservadorismo do seu país. É claro que as frases proferidas contra Dantas não têm nível nenhum, mas não será um bocadinho ingénuo pensar que um homem como Almada Negreiros não saberia disso? A razão porque os seus insultos são tão incoerentes é porque a obra de arte pretende representar um estado de alma em que a coerência já não é uma opção. Em vez do ”Manifesto Anti-Dantas”, Negreiros poderia ter escrito uma defesa racional e recatada dos méritos do modernismo face ao romantismo tradicional; não teria tido muito efeito (não só porque o romantismo usava golpes sujos – vide os jantares do Dantas – mas também porque quem está no poder raramente ouve as queixas de quem não está, por mais lúcidas que sejam), e mais, iria completamente contra o espírito da própria corrente futurista, cuja obsessão pelo progresso e pelo movimento exigia não textos pensivos mas sim BARULHO, GRITARIA, ACÇÃO! Pode-se não gostar desta corrente, mas isso é uma escolha estética, não moral. Enquanto obra de arte, o ”Manifesto Anti-Dantas” distingue-se por um lado por demonstrar perfeitamente os méritos do estilo futurista (a violência, a velocidade, a morte da razão humana dentro da máquina) e pelo outro por ser uma obra bastante pessoal, o grito de um homem que sabe que a razão não lhe ajudará e que por isso recorre ao insulto disforme como única maneira de exprimir a raiva provocada pela injustiça que sente. Não que antes não utilize à mesma a razão; mas entende-se logo que não pensa que lhe servirá de nada

E não nos esqueçamos de uma coisa muito importante, uma coisa que tão frequentemente é posta de parte na investigação da Grande Literatura, e quase sempre quando esta é feita em salas de aula: o humor. O ”Manifesto Anti Dantas” é de partir a rir, e não haja dúvida de que o Almada Negreiros sabia disso! E, sem conhecer mesmo nada da obra do tipo, é me difícil imaginar que Júlio Dantas poderia ter lido o documento sem se rir pelo menos um bocadinho de insultos chocantes como “O Dantas é Dantas!” Se foi o caso é porque o homem cheirava mesmo mal.