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domingo, janeiro 11, 2004
 
Não consigo partilhar completamente a indignação que o Barnabé e outros têm demonstrado acerca do artigo sobre a homosexualidade publicado no Diário Dos Açores. Sim, o tom é claramente sensacionalista e o carreirismo do seu autor aparente; sim, dizer que todos os homossexuais micaelenses já tiveram relações sexuais com adolescentes é uma pérfida generalização; e sim, o facto de o artigo todo se focar numa só fonte anónima tira-lhe muita credibilidade.

Mas só por ser sensacionalista, não quer dizer que não possa ser útil; só porque contem generalizações, não quer dizer que a comunidade de que fala não exista; e, francamente, se eu fosse dizer o que a “fonte” neste artigo diz, também me manteria anónimo, por puras razões de segurança pessoal.

O que é preciso observar aqui antes de mais nada é o contexto em que o artigo se insere. Ponta Delgada não é Lisboa; Lagoa não é o Porto. S.Miguel é província, meus caros amigos, uma província com literalmente décadas de atraso no que diz respeito às mentalidades vigentes. Vivo numa ilha em que é permitido a professoras fazerem piadas racistas (numa turma que incluí um membro mulato) sem esperarem qualquer tipo de recriminação; vivo numa ilha em que miúdas da minha idade (tenho dezanove anos) afirmam que o lugar da mulher é em casa. Já podem imaginar qual é a tolerância perante homosexuais: nenhuma, ou quase nenhuma.

Como já disse, a fonte do artigo faz generalizações: não duvido que existam nesta ilha muitos indivíduos homossexuais que nunca tenham tido sexo com adolescentes, mas tenho que admitir que a prática é mesmo assim muito comum; ver passar nas ruas um homem de trinta ou quarenta e tal anos com uma verdadeira manada de rapazes atrás não é um acontecimento fora do normal.

O que provoca isto é a própria sociedade: crescer normalmente como adolescente homossexual em S.Miguel é impossível; se eu tivesse, durante a minha puberdade, descoberto ser homo ou mesmo bisexual, teria dito imediatamente aos meus pais que iríamos voltar para Hamburgo, ou ao menos que nos iríamos mudar para Lisboa. Ser adolescente homossexual assumido nesta ilha significa, na melhor das hipóteses, ser alvo de insultos incessantes; mais provável será que estas chacotas rapidamente se transformariam em agressão física e, quiçá, violação (porque como sabemos, quem mais tem problemas com homossexuais..) Pondo de parte aqueles com grandes recursos financeiros e fortes capacidades de viverem em relativo isolamento, ser homossexual assumido nesta ilha é sinónimo de ser marginalizado, odiado, de nunca poder esperar sequer uma vida “normal”.

Repressões dessas, é claro, provocam certas reacções. Não vou me armar em psicólogo amador e tentar descobrir o que se passa nas cabeças dos indivíduos de meia-idade que “pescam” por jovens; talvez estejam a lamentar a juventude perdida, talvez pensem que são mais fáceis de seduzir, sei lá. Mas o que se passa nas mentes dos rapazes, isso já me é muito mais claro: uma vez que a homosexualidade leva obrigatoriamente à marginalização, porque não escolher uma marginalização bem estruturada, com códigos, regras e tudo o mais, como é a das “manadas” que referi anteriormente? Uma estrutura que, embora que se faça de conta que não é assim, conseguiu alcançar um certo nível de aceitação na população geral? É um pensamento muito mais aconchegante e seguro do que as outras hipóteses: assumir-se, e contar com o ódio de família, amigos e da sociedade em geral, ou desistir por completo e tornar-se padre ou asceta. Quanto ao dinheiro em jogo, bem, as condições sociais aqui não são as melhores, sabem? É claro que um dinheirinho é sempre bem-vindo, seja de onde for.

Acredito que a “fonte anónima” do artigo existe, ou se não existe, acredito que poderia ao menos existir. Como lutador ferrenho contra a intolerância nos meus grupos sociais (não gosto de me gabar, mas é uma das poucas coisas que posso realmente afirmar que sou), é claro que teria preferido que o debate nos media regionais se focasse em primeiro lugar sobre o homosexual “normal”, monógamo e apenas interessado em homens da sua idade; o caso do garagem é talvez a pior maneira possível de levar este debate ao público, já que está emaranhado em tantos outros assuntos. Mas a verdade é que existe uma comunidade homosexual em S.Miguel que se centra nas relações entre homens e adolescentes, e que é preciso encontrar alguma forma de lidar com esta mesma comunidade. Prender todos os culpados de “actos homossexuais com adolescentes” (e já agora, por que carga de raios é que “actos sexuais com adolescentes” e “actos homossexuais com adolescentes” são duas acusações diferentes???) de certeza que não servirá de muito (e com isto não quero dizer que isto não terá de ser feito; apenas que não mudará muito as circunstâncias.) Mas ler num jornal frases como esta:

“como é que um adulto pode querer ir para a cama com uma criança de 11 anos, não compreendo; na minha ideia deve ser uma doença qualquer, pois é um nojo, não faz qualquer sentido; é claramente um abuso; eles são doentes”.

…vindas da boca de um homossexual assumido já é, acreditem, um grande passo em frente. Parece-me que é impossível discutir a homossexualidade em S.Miguel sem discutir as relações adolescente/adulto, as manadas, a prostituição juvenil. E sem discussão, nunca iremos viver numa sociedade em que adolescentes poderão desenvolver a sua sexualidade de forma saudável, e sem discussão, as manadas continuarão para sempre, e sem discussão, nunca poderemos pôr nas mentes das pessoas que “homosexualidade” e “pedofilia” são dois termos diferentes, e sem discussão, a ideia que todos os homosexuais em S.Miguel já tiveram sexo com adolescentes continuará para sempre uma meia-verdade, e não uma mentira.

Que fique desde já claro: não acho que o jornalista responsável por este artigo esteja interessado na aceitação da homosexualidade nos Açores, ou sequer no apuramento da verdade; se assim fosse, não escreveria baboseiras como:

“Ao contrário da maior parte das raparigas, que aos 16 anos ainda se debate com questões relacionadas com a virgindade…”

(Será que confundiu “virgindade” com “gravidez”???)

Mas como já disse, também artigos sensacionalistas podem ser úteis, e com este publicado, talvez veremos em breve jornalistas de maior nível a cobrir o assunto, talvez ouviremos testemunhos menos anónimos a saírem. E isto só pode ser positivo.



sábado, janeiro 10, 2004
 
10 FACTORES QUE CONTRIBUIRAM PARA FAZER DE 2003 UM ANO FIXE:

1- O surpreendente sucesso das minhas tentativas de me fazer passar por adulto: Ei, olhem! Já tenho casa própria! Pago as contas, lavo a roupa, cozinho e tudo! E ei! Consegui publicar algo numa revista! Não, não é uma cena da Internet, uma revista à sério! Se isto continua assim ainda acabo por convencer alguém…


2- O re-encontro com uma velha amiga que se está sempre a queixar de nunca aparecer neste blog (satisfeita, Marlene?)

3- O ressurgimento do meu interesse em literatura: Não que alguma vez tenha parado de gostar de ler, mas foi neste ano (e, de maneira menos realçada, no anterior) que comecei a ler muito outra vez. Culpem a Biblioteca Ulisseia e a Penguin Classics.

4- A viagem pela Europa com o John, especialmente a estadia em Londres (e, dentro disto, especialmente a noite no Panic At The Office)

5- O concerto dos Da Weasel na Tenda Dos Bombeiros: Digam o que quiserem sobre o grupo, mas ao vivo são extremamente potentes.

6- A descoberta da minha identidade nacional: Após treze anos vivendo neste país, finalmente consigo dizer que me sinto português. Nem sei explicar bem como aconteceu, mas um dia, levantando os olhos do livro de Júlio Dinis que estava a ler e ouvindo os sons do disco dos Mundo Complexo que estava a tocar, apercebi-me.

7- O consumo moderado de estupefacientes: Não são tão bons como os mitos acerca deles fazem crer, mas um bom conhecimento de vinhos contribui de forma requintada para a imagem de dandy que cultivo, e um cachimbo de ópio dá um aspecto deliciosamente degenerado a qualquer casa (não, não tomo ópio)

8- ”O Eunuco Feminino” de Germaine Greer

9- A minha colecção de DVDs: Quatro séries de ”South Park”! Quatro séries de ”Buffy – A Caçadora De Vampiros”! Duas séries de ”League Of Gentlemen”! A edição completa de ”Blackadder”! A caixa d’ ”O Padrinho”! Etc. etc. etc.

10- A descoberta que Lucy Liu é, na verdade, uma mulher estonteantemente bela: Alcançada num comboio rumo a Barcelona e reforçado pelas fotos em sushi com colera


10 COISAS QUE ME CHATEARAM EM 2003:

1- Crise criativa: Após anos de trabalho, ainda não consegui alcançar um estilo próprio; limito-me a repetir ideias já exprimidas por melhores críticos que eu. O que talvez até seria suficiente aqui em Portugal, onde estas mesmas ideias ainda não estão muito divulgadas, mas o problema é que, nestes anos todos, escrevi quase exclusivamente em Inglês o que quer dizer que, para além das normais dificuldades de escrever sobre música Pop em português (já anteriormente referidas neste blog) tenho que lutar com graves problemas de gramática. Resumindo: na língua em que escrevo bem, não sou preciso; naquela em que a minha presença seria bem-vinda, sou incompetente.

2- O maldito exame de I.T.I. 2 que ainda tenho que fazer este Verão para completar o 12º ano: Sim, I.T.I. Trabalhar com computadores. Riam, riam, mas queria ver o que vocês fariam se não pudessem ter ido às aulas devido a conflitos temporais com outras disciplinas e agora teriam que completar um exame que consiste por um lado em obscuros conhecimentos teóricos e pelo outro na utilização de programas tão velhos que já nem se consegue arranjá-los nas lojas.

3- Crise política: Cada vez mais desiludido com a esquerda, com o idealismo cego, com a ingenuidade que põe todas as coisas em termo de bons vs maus, com as frases feitas, com o anti americanismo burro que, temos que o admitir, existe. Não que isto tudo me dê ideias de me juntar à direita; a única tentação que sinto é a de me tornar apolítico, a pior coisa de todas.

4- “Amigos” que nunca têm tempo, porque estão tãoooo ocupados com a universidade/a escola/seja lá o que estão a fazer: Vocês sabem quem são. :-P

5- A tendência de fazer de tudo uma piada: Existente em certas comunidades online, em certos amigos meus e em mim próprio.

6- O fim de ”Buffy – A Caçadora De Vampiros” : Está bem, cá nestas terras ainda temos três séries para ver, mas nos E.U.A. já acabou. :(

7- Pessoas que acham que, por algo ser “politicamente correcto”, isto quer imediatamente dizer que é algo de negativo: Assim como as pessoas que acham que, por algo ser politicamente incorrecto, isto quer imediatamente dizer que é provocante ou válido.

8- As listas de fim do ano da maioria da imprensa musical: ”Elephant” dos White Stripes, álbum do ano? Mas em que mundo é que vocês vivem????

9- Christina Aguilera

10- A programação “erótica” da SIC Radical: Existia algo no mundo menos sexy que as infantilidades incompetentes do ”Gostas Pouco Gostas”? Existe sim – as ”Nuticias”.



terça-feira, janeiro 06, 2004
 
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