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sexta-feira, outubro 31, 2003
 
Enquanto estavamos a voltar do Parque Atlântico, eu e o John vimos um bando de crianças vestidas com máscaras de Halloween. O John, que por vezes sente saudades dos E.U.A. e que não sabia que os hábitos desta festa têm sido adoptados com entusiasmo pela Europa afora, ficou deveras impressionado. Eis o diálogo que se seguiu:

John - You give me faith in the world again!

Rapazinho - Shut up!

John - Viva a liberdade!*

Rapazinho - Fuck you!

Ainda não parei de rir.

* É uma das poucas frases em português que ele sabe dizer



quarta-feira, outubro 29, 2003
 
O top5 da semana:

Tenho estado numa de Motown - a caixa "The Motown Hit Singles Collection, 1959-1972" é um disco obrigatório para qualquer fã da música popular* do século XX. "I Wish It Would Rain", "I Can't Give Back The Love I Feel For You" e "My Whole World Ended (The Moment You Left Me)" exemplificam o lado mais radicalmente melancólico, depressivo até, do selo. Não é aconselhável ouvir as três canções de uma vez; quem o fizer corre sérios riscos de se suícidar. Notem também que tanto em "My Whole World..." como em "I Wish It Would Rain" encontramos a linda voz do trágico talento David Ruffin.

As outras duas escolhas provêm da minha pasta de MP3s: os Half Man, Half Biscuit são uma das bandas mais subestimadas da Grã-Bretanha, e "It's Clichéd To Be Cynical At Christmas" uma boa maneira de saudar a altura que já se está a aproximar; as Northern State têm fama de versão feminina dos Beastie Boys, mas como "Dying In Stereo" demonstra, o grupo tem na verdade mais humor, mais simpatia e mais carácter do que os Beasties alguma vez tiveram. Apesar do título, é a canção mais avivada da lista, e com umas boas ondas Reggae em cima.

Feliz procura e download! :)


terça-feira, outubro 28, 2003
 
Os meus receios estão-se a confirmar: fui hoje a uma matiné do Cine Sol Mar, e para além de mim e do John só havia lá uma pessoa. O que para nós até foi agradável (mais liberdade de discurso e movimento), mas se fecharem o cinema por causa daquele multiplex, vou ficar fulo.

O filme: ”American Pie 3”. Não vi os primeiros dois, e também não teria visto este se não tivesse estabelecido este ano uma semi-regra de ir ao cinema pelo menos uma vez por semana. Foi surpreendentemente sofrível: no fim até fiquei um pouco triste por saber que não vai haver mais sequelas, e que portanto nunca irei ver como as personagens se irão desenvolver; visto que eu sou um horrível sentimentalista (pelo menos no que diz respeito à ficção; na vida real, nem tanto), isto não faz do filme propriamente uma obra-prima, mas tenho que admitir que gostei dele, a um certo nível. Pareceu-me estranhamente inocente, apesar de todos os gags nojentões através dos quais a série alcançou a sua fama, e que também aqui existem em fartura.

Algo a notar foi a banda sonora: James? Badly Drawn Boy? The Libertines? Van Morrison?? Vê-se que o departamento de marketing do filme está a apostar num crossover com outras audiências, principalmente as inglesas. O que me confunde muito – o público jovem americano não será muito mais importante para os bolsos? Só uma musiquinha dos Foo Fighters e outra dos Good Charlotte não será o suficiente para que muitos desses comprem a banda sonora (é claro que eu prefiro dez mil vezes os Libertines aos Foo Fighters, mas isso não tem nada a ver com o assunto…)

Sim, claro, admito, é claro que a principal razão porque gostei do filme foi esta:





….mas haverá melhor razão no mundo? *suspiro*


 
Os gostos discutem-se.

O problema é que as pessoas, ao discutirem os seus gostos, entram na conversa com falsas expectativas.

Uma é que falar dos gostos terá forçosamente que levar a algum lado; isto é um erro mortal. Qualquer peça de arte tem inúmeras interpretações, cada uma delas tão legítima como qualquer outra (desde que devidamente justificada; uma interpretação que não chega a esse nível poderá ainda ter valor para o indivíduo que a conotou, mas não numa interacção com o mundo exterior), e portanto é tolice pensar-se que alguma vez poderemos chegar a uma leitura "definitiva" de qualquer filme, disco ou livro. O objectivo de discutir arte não está em chegar a uma conclusão, mas sim em explorar as infinitas possibilidades que ela nos oferece. Deverá ser o gosto pela arte em si, bem como um saudável sentido de curiosidade pelas formas em que esta afecta diferentes pessoas, que incentiva uma pessoa a discutir os seus gostos, não a ilusão de chegar a algum lado e lá ficar.

Outra é que numa discussão dessas alguém deve "vencer". É claro que se o poder de argumentação de um dos lados é mais fraco do que do outro, poderá-se dizer que o outro "venceu" num nível puramente intelectual. Mas isso nada tem a ver com os gostos em si - ou seja, só porque um indivíduo não sabe explicar bem o seu amor por uma canção qualquer perante alguém que a odeia, não quer dizer que esta canção é objectivamente "má" ou mesmo que o indivíduo deve parar de a ouvir. Os gostos discutem-se, mas não se erradicam (a não ser que seja de modo natural.) As discussões sobre a arte não servem para determinar objectivamente o valor de uma peça de arte, mas sim para aproximar dois universos, de dois sujeitos a experienciarem o mesmo objecto - estamos outra vez na tal exploração.

A maior atracção nestas conversas para mim é a possibilidade de vislumbrar, mesmo que seja só por um segundo, algo que me faça entender como outra pessoa experiência uma canção ou um livro qualquer do/da qual já tenho opinião formada. São normalmente farrapos, não teorias elaboradas - pequenas comparações, exclamações ou relatos que me fazem ver sob uma nova luz algo que julgava ser familiar. E de repente, encontro-me a adorar um grupo que costumava odiar, ou pelo menos a entender porque outros gostam dele. E também acontece que de repente entendo porque certas pessoas odeiam grupos que adoro: mas isto raramente faz com que já não goste deles; o que acontece é que o meu amor já não se encontra num estado de adoração indiscriminada, e em vez disso transforma-se em algo mais maduro, a actividade de amar algo mesmo sabendo que existe nele grandes falhas. O que acaba por ser ainda mais profundo e muito mais enriquecedor.