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quarta-feira, agosto 27, 2003
 
Top5 da semana. Lancem o KaZaa ou o SoulSeek e façam o download das seguintes canções:

1-"The Book Lovers", The Divine Comedy
2-"Genius", The Dandy Warhols
3-"Carta De Amor", Mundo Complexo
4-"Something Changed", Pulp
5-"Senõrita", Justin Timberlake

Um título espanhol numa canção Pop do panorama actual normalmente é um sinal certo de que a cantiga será foleira - ou uma badalada tipo Ricky Martin, ou uma balada pegajosa com spanish guitar. Não faz sentido ser o Justin Timberlake o primeiro a quebrar essa regra, mas sejamos honestos, o facto do gajo irritante dos odiosos N'Sync se ter transformado numa das mais fascinantes personalidades da cena Pop de agora também não faz lá muito sentido. A batida dos Neptunes é sedutora, mas desta vez a parte mais importante da canção é mesmo o próprio Justin, mesmo até ao último momento da canção, quando ele diz "Gentlemen, good night. Ladies, good morning" e depois dá uma risada betinha, fazendo com que eu fique perplexo à frente da televisão a meditar sobre se este é o gajo com mais estilo de todos os tempos ou se é o gajo com menos estilo de todos os tempos.

Os Pulp são um grupo que nunca se encontra muito distante da minha aparelhagem, mas essa semana isto fez com que os ouvisse mais do que o habitual. A letra de "Something Changed" é bastante atípica para os Pulp, visto que o seu cantor e letrista Jarvis Cocker normalmente se delicia com canções macabras sobre desejo e vingança - "Something Changed", pelo contrário, é uma linda canção de amor, um retrato perfeito da surpresa sentida quando nos apaixonamos ("oh, when we woke up that morning/we had no way of knowing".) Jarvis, demasiado neurótico para aceitar um milagre desses sem colocar dúvidas, pergunta "what would I do now/if we never met?/would I be singing this song/to someone else instead?". "Stop asking questions that don't matter anyway", responde a sua amada, com um sorriso na boca e uma sensação de que ela terá que trabalhar muito para fazer com que esse rapaz atine. Atrás deles, um Britpop de chorar por mais, com violinos e outras coisas de que se gostava nos mid-90's.

"Acredites Ou Não", dos Mundo Complexo, é um disco que eu posso recomendar. Têm um som distintivo (morno, acolhedor, muito diferente da maioria do Hip-Hop actual por virtude da instrumentação e do scratching, o que não quer dizer que só por isso sejam melhores do que os outros rappers 'tugas actuais, mas é fixe que alguém esteja a variar um pouco), uma consciência política bem desenvolvida e conexões com os Micro. Mas já viram que eu esta semana 'tou com as canções de amor, e por isso esta aqui é (por enquanto) a minha faixa preferida do álbum. Um bocadinho lamechas, é certo, mas para quem não tem medo de abraçar o piroso dentro de si....

O primeiro álbum dos Dandy Warhols é um tanto preguiçoso - parece que nessa altura os Dandys pensavam que lá por terem um bom som drone e umas melodias bonitas e baldes e baldes recheados de estilo podiam simplesmente por isso num disco sem desenvolverem as suas canções para serem mais do que apenas, bem, drone e fragmentos de melodia. Ainda assim, "The Dandy Warhols Rule OK" tem os seus momentos, principalmente o degenerado "Genius" - "darling/if you give me a rope/I'll hang myself/it doesn't take a genius to figure it out/don't have to be fucking brilliant to know/I'm not as smart as I seem to be".

Finalmente, uma canção de um dos meus grupos favoritos. Sei bem das falhas dos Divine Comedy (elitismo, paixão exagerada pelo passado, o gigantesco ego do Neil Hannon), mas mesmo assim adoro-os...que posso dizer, tenho um fraco por grupos com arranjos orquestrais e imagem de dandy. "The Book Lovers" consiste simplesmente em cerca de seis minutos com o Neil Hannon a recitar os nomes de escritores famosos (de Emile Zola até Herman Hesse até Kazuo Ishiguro) acompanhado de música e curtas respostas dos próprios ("my car's broken down", diz o Jack Kerouac; "WHAT DO YOU WANT FROM ME????", grita o Franz Kafka.) Embora que o Neil exclame os seus nomes com uma voz calma e disciplinada, como um professor a fazer a chamada no início da aula, o atractivo de "The Book Lovers" é semelhante ao de ver uma criança de cinco anos relatar o programa de televisão que acabou de ver - ao ouvir "The Book Lovers" podemos bem imaginar o Neil Hannon a andar aos pulos pela casa enquanto grita "eia, eia, eia, a literatura é tão FIXE!!"

E depois há aquele refrão - "happy the man/and happy he alone/who in all honesty/can call today his own/he who has life/and strenght enough to say/'yesterday's dead and gone/I want to live today'". Palavras aplicáveis ao Gustav Flaubert e ao James Joyce, sem dúvida, mas será que o Herman Hesse, chorando pelo desaparecimento da sensibilidade clássica, ou o Sir Walter Scott, se conseguiriam identificar com estas linhas? De facto, a sensibilidade literária não pressupõe até preocupar-se demasiado com o passado? E mesmo se o refrão serve para todos os escritores mencionados, não será que o Neil Hannon está a comprometer a sua própria felicidade por cantar os seus louvores, em vez de estar a viver a sua vida, a viver no hoje? Será que a personagem que recita os nomes dos autores e a que canta o refrão são dois indivíduos distintos?



segunda-feira, agosto 25, 2003
 
Respondendo aos vários comentários sobre o "escrever bem": houve, parece-me, por parte dos meus leitores um assumir de que eu estaria a dizer que "escrever bem = forma, gramática, sintaxe". Nada poderia estar mais longe da verdade!

Ao mesmo tempo, também não se pode dizer que a forma é irrelevante, e que apenas o conteúdo importa. Um artista, antes de mais nada, deve ter ideias, inspiração, criatividade, é certo. Mas depois disso, deve escolher o meio pelo qual nos quer transmitir essas ideias, e aprender a dominá-lo. Querer apenas a substância, sem dar nem um mínimo de valor ao estilo, parece-me um bocadinho puritano demais...todas as acções humanas estão repletas de estilo - a roupa serve para nos proteger dos elementos e para manter um certo nível de privacidade, mas mesmo assim nós preferimos roupas bonitas a roupas feias, por exemplo - e não entendo porque a escrita deveria ser diferente. O gosto pela palavra, pela frase, pela beleza da escrita é tão importante como o interesse em assuntos cativantes.

Em outras palavras: os "grandes" escritores (eu estava agora a pensar num em particular, mas não digo o nome para não forçar - imaginem o vosso escritor preferido, de certeza que assim também funciona) têm uma marca de estilo tão magnífica que poderiam escrever um ensaio sobre a dor no seu pé direito e mesmo assim ainda daria vontade de ler; mas nenhum dos grandes escritores ficou grande por escrever sobre a dor no seu pé direito.

Convém ainda realçar que essa fermentação de um estilo próprio não significa curvar-se perante as sagradas regras da estrutura, da gramática, etc. Jogos com a gramática, com a pontuação, etc. são sempre bem-vindos, e de facto eu próprio sei que os aspectos formais da minha escrita são menos do que perfeitos, por isso também os tolero noutros. Mas há que ter aquilo que o meu pai costumava chamar "a estética da recepção", ou seja, transformar as ideias que temos dentro de nós em algo que possa dar gosto de ler.

É uma questão Ying/Yang - um texto formalmente perfeito mas sem ideias é maçador; um texto cheio de ideias mas sem a capacidade de as exprimir de forma original e coerente é confuso e esteticamente desagradável. A arte de bem escrever está, pois claro, na combinação dos dois.

(Desculpem se o texto foi "intelectualóide" - sou intelectual apenas na medida em que sou masturbador: não é algo de que tenha orgulho, é apenas uma necessidade que tenho que satisfazer.)