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quinta-feira, agosto 14, 2003
 
Na noite seguinte fomos à Club Night do Freaky Trigger, uma das melhores revistas de música online (o seu fórum, ILX, é talvez o melhor fórum de música na 'net.) O ambiente foi simpático, mas tudo tinha um certo nao sei que de festa privada, e foi difícil arranjar parceiros de conversa, mesmo com o Big Boi, a minha t-shirt do Gizmo e a pistola de água (a qual já tinha me proporcionado bastante diversao no metro, onde eu passei algum tempo a apalpá-la enquanto repetia o monólogo do Robert DeNiro no início de "Taxi Driver", causando muito embaraco ao John) do nosso lado. Conseguimos no entanto arranjar algumas companhias, as quais nos levaram a uma discoteca onde as bebidas custam 40 pence...a decoracao era tao bizarra como a escolha de música (enquanto eu estive lá, tocaram Strokes, Monkees, Justin Timberlake, Beyonce e Sean Paul; o John disse-me que depois também tocaram White Stripes, e que acabaram a noite com um medley de "Sweet Child O' Mine" e "Summer Of '69"), mas depois da noite anterior os meus critérios eram demasiado altos para realmente conseguir me divertir lá, e uma vez que ainda tinha que fazer as malas e o facto de as bebidas serem baratas nao me dizer muito respeito, fui-me embora cedo, deixando o John com os outros a dancar ao som de "Crazy In Love" (o gajo tem uma obsessao com o Jay-Z, o que está comecando a ser deveras irritante.)

E assim acabou a minha estadia em Londres.


 
À caminho de casa, uma pessoa qualquer dá uns cartoes ao John. Isso em Londres é mais do que comum - normalmente é publicidade para uma promocao de telemóveis qualquer ou uma manifestacao política. No entanto, por sorte o John olha para o cartao:

"Panic At The Office - Every Tuesday!" e depois há lá uma lista de bandas cuja música o clube toca. Inspeccionando os nomes, nao restam dúvidas - é um Indie Club.

- 'Bora lá? - pergunta o John. Eu ainda nao me sinto confortável em fazer noitadas depois daquele "incidente" em Madrid, mas porra, sempre quis ver um Indie Club, e por isso aceito.

Há com certeza outros estabelecimentos que tocam Blur e Bob Dylan, Smiths e Roxy Music, Roots Manuva e Yeah Yeah Yeahs. Este certamente nao é o único lugar onde nao há a mínima razao para ter medo de dancar, porque ninguém sabe dancar e, mais ainda, todos têm orgulho nisso. Nao nego que possam existir outros clubes pelos quais andam miúdas que parecem irmas gémeas da Kelly Osbourne e rapazes que parecem irmaos gémeos do Jarvis Cocker. Posso até admitir que existam outros lugares onde dao rebucados de graca à entrada. *

Mas mesmo assim, Panic At The Office ficará para sempre na minha memória como um certo ideal, uma utopia...pela primeira vez na minha vida, experienciei a ideologia Indie na sua forma mais positiva, totalmente desprovida de todo o tipo de snobbismo, de ego e de choraminguices. Nao dancavamos (ah ah, "dancavamos") ao som dos Electric Six ou da Beta Band para demonstrarmos que somos "melhores" ou mais inteligentes do que o pessoal que, nas outras discotecas, estava a vibrar ao som do Jay-Z e do Justin Timberlake - nao era uma questao de querer forcar um odioso e elitista critério de "bom gosto" ou algo assim...aposto que muitas das pessoas que ali estavam a dancar até gostam do Justin Timberlake (eu sei que eu gosto), mas a verdade é que a música do topo das tabelas jamais poderá dar a mesma sensacao de uniao que a música de um bom Indie Club dá. É que quando, num bar qualquer, alguém me revela que gosta do Justin Timberlake, isto quer dizer muito pouco - milhoes de pessoas gostam do gajo, muitas das quais nao têm nada em comum comigo. Mas quando se experiencia momentos como os que eu tive nessa noite - a vez quando eu e o tipo com a aparência hippie fomos os únicos doidos o suficiente para tentar dancar o "Subterrenean Homesick Blues" do Bob Dylan, a vez quando o gajo parecido com o Jarvis Cocker me gritou no ouvido "'Dry The Rain' by the Beta Band, what a tune, eh?", a miúda cuja cara rebentou num imenso sorriso quando se apercebeu de que estavam a tocar "Cemetry Gates" dos Smiths, a vez em que eu e a miúda parecida com a Kelly Osbourne ambos pusemos os dedos em forma de revólver durante a parte de "I Fought The Law" (versao dos Clash) em que cantam "robbin' people with a six gun", o sorriso que troquei com uma loira quando ambos nos apercebemos de que "Witness (One Hope)" do Roots Manuva tinha comecado a tocar - isso é algo totalmente diferente. Sao experiencias que dizem: podes ser diferente (nao melhor nem pior do que os outros, apenas diferente), mas isso nao quer dizer que nao existem outros como tu, outros que te compreendem. Sei que estou a romantizar imenso, e que nao se deve julgar as pessoas pelos seus gostos musicais (todas as pessoas que eu mencionei acima podem bem ser paspalhos no dia-a-dia), mas houve momentos, no meio de uma danca ao som de "Boys & Girls" ou "Date With The Night", em que senti que todas as pessoas na sala eram meus amigos, e que, por virtude de gostarmos todos de música "esquisita" formamos uma espécie de irmandade.

Maybe I'm just a godamn fucking hippie.

* Os rebucados sao mais importantes do que voces podem pensar - o facto de entrarmos todos na sala com chupa-chupas elimina automaticamente quaisquers pretensoes de arrogancia, de "cool." É uma forma bastante clara de dizer: aqui nao tens que ser adulto, nem tens que ser "adulto" (ou seja, ingerir a maior quantidade possivel de álcool numa só noite para mostrares que já és "crescido"); ninguém aqui dentro tem estilo, e tu também nao precisas de tentar ter. É um verdadeiro abraco logo à entrada.


 
E também fomos à loja Disney. Comprei umab pistola de água. Nem perguntem.


 
Nesse serao fomos ver "Charlie's Angels - Full Throtlle".

Há ali uma cena em que a Cameron Diaz está a transportar caixotes para dentro de uma casa, e enquanto isso na televisao está a dar o teledisco de "U Can't Touch This" de MC Hammer. Súbitamente, ela larga os caixotes e comeca a dancar freneticamente ao som da música. A Drew Barrymore e a Lucy Liu trocam um olhar confuso e, de seguida, juntam-se a ela.

Palavra de Deus, às vezes até eu nao sei bem o que dizer.


 
Duas t-shirts que eu devia ter comprado: uma com a inscricao "Nobody Knows I'm Really A Lesbian", e outra com "Mind The Gap" (para confundir pessoas nos concertos dos Mind Da Gap.)

T-shirt que eu comprei: uma dos The Who, com o grupo agasalhado pela bandeira britânica.


 
Perto do nosso hotel, na Oxford Street - a exibicao do musical "Queen - The Musical", desenvolvido por Ben Elton (que costumava ser um dos melhores cómicos da Inglaterra e que realmente devia ter vergonha por participar numa merda dessas.) O espectáculo é publicitado por uma estátua dourada do Freddie Mercury, com uma expressao na cara que lhe dá a aparência de um ditador fascista. "Ein staat, ein land, ein Freddy!"


 
Sem saber bem para onde ir à noite, decidimos pelo lendário 100 Club, que conheciamos principalmente como sendo um dos focos principais da cena Punk britanica dos anos '70. O cartaz à frente do clube publicitava um artista Rockabilly, "like Chris Isaak, Elvis, Johnny Burnette and Eddie Choicran (sic) all rolled into one". Na verdade, o gajo até nao foi mal, embora que as comparacoes - está claro - sao absurdas. Tocou originais, tudo num estilo Rock & Roll dos anos '50, e algumas pessoas de meia idade dancaram.

Pela minha parte, eu adoro a música Rock & Roll dos anos '50, acho até que é a melhor música de todos os tempos, superior aos Beatles, superior aos Sex Pistols, superior ao Bob Dylan. Mas mesmo assim a cena pareceu-me um bocadinho estranha, um monte de pessoas a fazer conta de que os últimos quarenta e três anos nunca aconteceram. Só mesmo na Inglaterra.


 
Ah, e para além disso também compramos um boneco do Big Boi, dos Outkast




PUNK AS FUCK!!!!!!!


 
Londres! Londres, meu Deus, Londres! O paraíso de todos os amantes de música. Tento controlar-me. É fútil. As minhas novas acquisicoes:

"The Disco Box" (quatro CDs com todos os maiores êxitos da era disco sound, tudo com o selo de qualidade da Rhino Records)
"Let It Bleed (Remastered Version)", The Rolling Stones
"The Boy With The Arab Strap", Belle & Sebastian
"The Specials", The Specials
"The Best Of The Beau Brummels 1964-1968", The Beau Brummels
"The Coral", The Coral
"Magic & Medicine", The Coral
"Scott 3", Scott Walker
"Promenade", The Divine Comedy
"1000 Nadelstiche - 1970s" (Olivia Newton John, Terry Jacks e outras aberracoes dos anos '70 cantam os seus êxitos...em alemao!)
The Walker Brother Collection" dos Walker Brothers e "Let's Get Small" do Steve Martin, ambos por apenas quatro libras!
"Sunflower/Surf's Up", The Beach Boys
"The Best Of", S Club 7
"De Stijl", The White Stripes (dois exemplares!)
"Take Me Back To Tulsa", Bob Wills & His Texas Playboys (quatro CDs com quase todas as gravacoes do lendário cantor Country dos anos '40, tudo por apenas dez libras!)
"Forbidden Software Machine", Momus


 
Às 22:30, um bocadinho antes da quiet time, vou buscar refrescos. Ao voltar, oico o som de um piano a tocar tristes melodias vindo do designado "music room". Faz sentido, mas mesmo assim é um bocadinho arrepiante. Decidimos mudar-nos para um hotel no dia seguinte.


 
Já que embirrei tanto com a Franca: ouve lá Gra-Bretanha, nem sequer precisas de entrar no euro nem nada, mas essa coisa das tomadas porra, toma conta disso!


 
Permanecendo no estilo de viagem "económica", dirigimo-nos para uma pousada de juventude universitária. É um lugar deveras estranho - dao-nos um quarto na cave. Parece que o estabelecimento normalmente funciona nao só como universidade mas também como escola primária...pelo menos essa é a explicacao mais óbvia que conseguimos encontrar para os múltiplos cartazes espalhados pelos corredores, tudo muito colorido e com informacoes tipo "we can only bring healthy snacks to lunch" e "we all go to the park in a straight line". Para além disso também encontramos instrucoes que nos informam de que a "quiet time" comeca às 23:00. Como já disse, um lugar deveras estranho. Quanto ao nosso quarto, tem duas camas e um armário.


 
O comboio de Paris para Londres foi a viagem mais rápida e mais agradável de toda a nossa odisseia. Cerca de duas horas - desde quando é que os franceses e os ingleses se gramam o suficiente para facilitarem assim as coisas? Ao sair para a Waterloo Station, deparamo-nos com um sinal que dizia "Way Out Sortie". Esquecidos de que "sortie" significa saída em francês, decidimos logo que esta expressao deve fazer parte do calao londrino e comecamos a conceber uma cancao Ska (estilo Specials) chamada "It Is A Way Out, Sortie". A estadia comecou bem.


 
Hoje, falemos de Londres!


quarta-feira, agosto 13, 2003
 
Já devem ter reparado que nao gostei muito de Paris. Nao tomem isso como uma posicao definitiva - tenho certeza de que a Franca, tal como qualquer outro país, tem muita boa coisa a oferecer. Mas nao foi desta vez que me decidiu mostrar os seus prazeres.


 
E mais uma coisa - Franca, ouve: o Inglês é a língua universal. Estamos no século XXI, e já ninguém sabe falar francês. É tao simples como isso - os E.U.A. sao os donos do mundo, e o resto da Europa já entendeu isso. Em Portugal, na Alemanha, em Espanha, em Itália, na Suécia, na Austria e na Suica, podes perguntar "do you speak english?" e encontrarás alguém que te ajude. Mas contigo, é preciso antes de mais nada dizer "parlez-vouz anglais?", o que é simplesmente arrogante e ridículo. Bem, se pelo menos assim funcionasse, ainda se tolerava as tuas excentricidades - mas o problema é que ninguém neste país parle anglais! Nem mesmo os jovens!

Mas ouve lá Franca, o que é que tu estás a tentar provar, hem? Nao é de certeza assim que vais ganhar a guerra cultural - entao nao sabes o que o velho Mao disse, que é preciso conhecer o inimigo? Entao como é que vais poder te queixar da sociedade de consumo se nem o menu do McDonalds consegues ler??

E é que nem os americanos, nem os teus velhos adversários os bretoes se deixam irritar por essa mania tua. Tanto uns como os outros vivem em países onde só se fala inglês, e por isso quando vao para o estrangeiro assumem que ninguém sabe falar a sua lingua...até acham divertido aprender algumas frases dos idiomas locais. Quem depois fica a sofrer com as tuas 'noias, Franca, sao pobres turistas portugueses e suecos. E que mal é que te fez alguma vez a Suécia???


 
É claro que na mui sofisticada cidade de Paris, as coisas já nao sao assim. Pois nao - aqui, os lavabos da estacao de comboios sao controlados por uma sinistra companhia chamada "McClean". Para entrar, é preciso um euro exacto. Se tiveres mais, tens que tentar mudar numa máquina; se tiveres menos (ou se, como foi o caso do John, tens um euro em trocos e nao consegues fazer com que os empregados entendam isso), bem, pouca sorte.


 
Sartre, Camus, Flaubert, Zola, Verlaine, o Maio de '68, Marcel Proust, Serge Gainsbourg, Francoise Hardy, Air. Em principio, existem muitas razoes para amar a Franca. Mas só foi preciso visitar a casa de banho da estacao de comboios na paragem entre Barcelona e Paris (nao me lembro do nome) para que todas essas razoes se desvanecessem. Os lavabos têm um buraco. Um buraco no chao! E é aí que se faz o que se tem que fazer. Sei que as culturas sao diferentes e tudo isso, mas desculpem lá, isso é nojento.


 
No comboio de Barcelona para Paris - "As Maos Sujas", de Jean Paul Sartre. O gajo entendia bem as coisas, entendia as bem demais. Certamente nao é este o livro que me vai resgatar da desilusao política em que me encontro.


 
Ao longo da viagem, e principalmente na Peninsula Ibérica, encontrei muitos graffitis anti-guerra. Esses têm hoje um sabor amargo, tipo "bem, tentamos." Quando penso nisso, quase decido que teria sido melhor se os americanos pelo menos tivessem continuado a sua fachada, se nao tivessem aberto o jogo depois de terem ganhado a guerra. Preferia que a minha geracao tivesse entrado na idade adulta num mar de mentiras do que neste vazio total, nesta certeza de que os maus sempre ganham e de que nem vale a pena tentar. Mas existem também outro tipo de graffitis - de organizacoes anarquistas e socialistas (socialistas a sério) Estes entao, deixam-me completamente perplexo - mas em que mundo é que essa gente vive???


 
No dia seguinte, com o comboio para Paris já marcado e pouco tempo a perder, fomos ver a igreja modernista de Gaudi. De longe, uma visao deveras impressionante, mas sem ter estudado o guia e com um certo nível de stress, nao tivemos a sorte de encontrar os melhores lugares. Apenas subimos as escadas de caracol, que no início têm o seu fascinio mas depois tornam-se apenas irritantes, e vimos um monte de seccoes em construcao. A construcao da igreja de Gaudi remonta até aos inicios do século e só se ira finalizar em 2030. Isto sim é modernismo.


 
No próximo dia fomos a Barcelona, reservando um bom hotel para tentar esquecer os traumas da noite anterior. À tarde fomos à Ramla, mas acabamos no porto. Portos, algo que nos liga - Hamburgo, S.Miguel, e a cidade natal do John, Gothenburg. Ambiente pacífico e sereno. No fim do serao, comecamos uma longa conversa à volta do tema "Moby can't get a cab", que evoluio mais do que devia. Comecamos a falar no "Moby Rights Movement" dos anos '60, nos grandes avancos que já vimos acontecer no que diz respeito à tolerância do Moby na sociedade de hoje (quer dizer, o gajo até já ocupa posicoes de poder na Casa Branca!) e até nos "wobies", rapazinhos brancos que rapam as cabecas e só comem vegetais.


 
Hoje: Barcelona e Paris.


terça-feira, agosto 12, 2003
 
Madrid - calor, calor, calor! Calor em toda a parte, está claro, porque a nossa viagem deu-se no meio de uma onda que está a afectar toda a Europa. Mas Madrid foi o cúmulo. Mesmo assim, fomos explorar a linda cidade - e a noite, passamo-la primeiro numa simpática praca que me fez lembrar as pracas acorianas, e depois num simpático pub que me fez lembrar um estabelecimento acoriano (o John's Pub, para quem conhece.) Nao pude deixar de sentir uma certa satisfacao ao aperceber-me de que consigo improvisar um espanhol decente.

Depois de sair do pub é que os sarilhos comecam - o John já tinha bebido três cervejas, dois irish coffees e duas cuba libres, mas enquanto estavamos sentados no bar isso nao parecia ter feito efeito nenhum nele. Porém, no momento em que se levanta transforma-se num autêntico maníaco, correndo pelas estradas de Madrid. De início nao havia crise - passamos o tempo a dancar pelas ruas e a cantar letras dos Pulp; as minhas preocupacoes comecam só quando passamos pela praca e um jovem espanhol, tomando nos por americanos, comeca a gritar "Columbine! Columbine!"

Finalmente consigo convencer o meu amigo a voltar à pensao...chegamos ao nosso quarto, e o John senta-se na sua cama, perto da qual está um canivete.

....................

Pois.

Ocorre-me que até aqui só falei mal dos espanhois, porventura incentivando os odiosos estereótipos que estao tao bem divulgados por estas terras. Deixem-me realcar portanto a enorme simpatia do casal que estava a gerir a pensao onde nos tinhamos albegrado; toda a gratidao, e todo o dinheiro extra que insistimos em pagar no dia seguinte, nao foi de certeza suficiente para recompensar a bondade e a serenidade com que esse par se deixou acordar às três da manha para acudir um hóspede sueco que, por razoes de embreguiadez, pegou num canivete e cortou o braco, acertando numa veia!

Foi um incidente quase inexplicavel; de todas as pessoas que conheco, o John é talvez a com a qual eu menos contava em fazer uma coisa dessas. O homem nunca teve impulsos suicidas na sua vida; ausência total de dramas familiares, vida romântica normal, poucas crises de identidade, uma disposicao satisfeita e alegre. Passámos muitas horas nos dias seguintes tentando determinar o que aconteceu - o calor levou algumas das culpas, assim como a música Punk que tinhamos estado a ouvir ("eh, eh, olhem para mim, eu sou o Johnny Thunders!" - mais ou menos isso); mas nao existe na minha mente dúvida alguma de que o maior culpado foi o álcool. Dei gracas ao facto de que eu nunca atinei bem com as substâncias álcoolicas (eu próprio tinha bebido desgostosamente duas cervejas e um irish coffee, de modo que ainda me encontrava completamente sobrio) e lancei pragas contra os governos que ilegalizam o consumo de drogas leves e autorizam estas merdas, quando a noite de haxixe tinha sido tao agradavel e esta noite acabou nisto. Argumentos inúteis, bem sei eu, pois o metabolismo de cada indivíduo é diferente e os efeitos também variam, mas mesmo assim.

Passei a noite quase toda em branco, tentando suavizar o ataque de pânico que o meu companheiro estava agora a sofrer. A ferida acabou por ser uma coisinha de nada - dentro de três dias já nem se via; mas o incidente em si lancou uma nuvem sobre as nossas férias, nuvem essa que demoramos algum tempo a afugentar.



 
Quando chegamos à estacao de comboios de Madrid, somos imediatamente alvos de um gatuno que nos pede vinte céntimos. O John, demasiado adormecido para entender a situacao, abre a sua carteira e comeca a procurar a moeda, enquanto o tipo murmura palavroes em espanhol. Finalmente, pega numa moeda de dois euros e vai-se embora.

Nao sao os dois euros que me irritam, mas por que carga de raios é que o gajo se sentiu obrigado a insultar-nos enquanto nos tirava dinheiro?


 
Confesso que sou um menino excessivamente habituado ao luxo, mas porra - a viagem entre Lisboa e Madrid foi demais. Cinco horas de espera numa estacao de comboios em Medina, das três da madrugada até às oito da manha. Quando tentei tirar fotografias fui reprimido por um grupo de policias espanhois *; de resto, a coisa mais interessante na estacao é uma rede de túneis que servem de conexao entre os diferentes lugares de partida, mas cuja arquitectura deu-me a sensacao de estar num jogo "Tomb Raider". Quanto ao John, lembrou-lhe um conto do H.P. Lovecraft, o que nunca é bom.

* É relevante notar que as autoridades espanholas simplesmente têm tempo livre a mais; na estacao de comboios de Barcelona um policia embirrou conosco por - Ai Jesus! - nos sentarmos no chao num lugar onde nao havia cadeiras.


 
Lisboa, está claro, é Lisboa, e permanecerá sempre Lisboa, gracas a Deus. O John ficou surpreendido com a quantidade de pessoas que nos queriam vender haxixe. Os únicos acontecimentos dignos de relato: a convencao de ginastas que estava a aterrorizar pracas e centros comerciais ("so, this is what your people are like?" perguntou o John quando fomos confrontados com um conjunto de homens em roupas extremamente embaracosas a saltar em trampolins no meio do Colombo - a melhor comparacao que posso dar seria a cena da peca de Natal no "South Park", aquela com o Philiph Glass); e um simpático bretao que nos fornece com haxixe de graca. Infelizmente nao nos dá o seu nome, mas revela que vem de Manchester e que se encontra alistado na french foreign legion (!) "It's a lot of bullshit, so it is" conta nos ele num Inglês tao lindo que nao me atrevo a traduzi-lo "they give you a fookin' helmet with a fookin' candle on top" (a vela parecia irrita-lo muito mais do que o capacete.) Aparentemente ele tinha passado a última noite a beber copos com um Irlandês, e o haxixe fornecido era uma consequência disto. "So I'm real hungry, right, and I'm eatin' me kebap, when this fookin' irishman comes up to me and says I should buy this huge-arse stack of haxix" relata o nosso novo amigo "and I'm like: 'oi, I'm tryin' to eat me kebap! Fook off!'"

Nao será sequer necessário dizer que "oi, I'm tryin' to eat me kebap!" se transformou imediatamente num lema, nao, num verdadeiro mantra entre eu e o John.


 
Após ter chegado ao aeroporto de Ponta Delgada, reparo que esqueci de levar a revista de música que ia ler no aviao. Em desespero, compro um livro à toa.

Seria impossivel a viagem ter comecado de melhor maneira do que com a prosa de Nuno Braganca. Em "A Noite E O Riso", vejo Sallinger, Kafka (mas um Kafka que luta), vejo muito Hemingway, vejo um livro cuja caótica estrutura apenas realca a sua magia. E tenho a estranha sensacao de ser o último blogista em Portugal a ler esse gajo - tantos dos seus tiques sao-me tao familiares da bloglogsfera nacional!


 
Escrevo de um laptop em Hamburgo, a cidade da minha mais jovem infância (daí a falta de símbolos ortográficos portugueses, pela qual peco desde já desculpa.) O John já se foi embora, a viagem está acabada. Permaneco no entanto mais uns dias aqui, até voltar aos Acores. Relatos da viagem? Há muitos. Por hoje, falemos apenas de Lisboa e Madrid...nos próximos dias, completarei o quadro, e depois tentarei actualizar-me no que diz respeito à cena blogistica nacional (vi que já existe mais um blog acoriano!)