Filosofia & Bolachas



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terça-feira, julho 22, 2003
 
Acabado o debate em si, sinto-me ainda na obrigação de responder à dúvida da Paula do deslizar no sonho, porque não o fazer seria uma falta de respeito quase tão grave como chegar tarde a um encontro e isto assim não dá. O "meio fechado" no qual habito são os Açores, mais propriamente a linda ilha de S.Miguel. É uma pena ter de falar nisso no contexto de ser um "ambiente fechado", porque apesar da sua frequente tacanhez tenho muito amor ao meu lar adoptado e não gosto de falar mal dele. Pena é que não haja mais gente blogísticamente inclinada por estas bandas, o que me faz pensar - serei eu o primeiro blogador açoriano?? Ainda não me aconteceu encontrar outro blog de alguém cá do arquipélago, será que fiquei eu com a função de pioneiro, revolucionário, inovador? Irá a minha imagem constar em futuros livros de história, junto de outros veneráveis nomes da arte blogística como O Meu Pipi*?

Também me foram pedidas algumas sugestões de música, tarefa à qual nunca posso resistir. Creio que grande parte do meu blog é composto de sugestões musicais, mas essas talvez são um bocadinho lacónicas, visto que apenas faço recensões "à sério" de discos do mercado nacional no "Filosofia & Bolachas" (isto ocorre principalmente porque tenho outro lugar para onde mandar as minhas críticas de discos do mercado estrangeiro - a minha secção do CultureDose), e o resto da música que oiço apenas menciono "quando calha". Ficam aqui portanto as minhas escolhas para os cinco melhores discos de 2002; não sei se irão corresponder ao teu gosto, Paula, mas acho que todos eles são dignos de serem ouvidos várias vezes, com muita atenção, antes de serem eventualmente descartados.

5-"Read Music/Speak Spanish", Desaparecidos

Connor Oberst já foi antes aqui referido como sendo o líder (e único verdadeiro membro) dos Bright Eyes, uma das bandas Emo (sub género do Punk, com o ênfase em melodias contagiantes e letras melodramáticas) com mais sucesso do momento. Nesta incarnação, Obesrt é um trovador pretensioso com amplas neuroses e um toque de misoginia - a sua música pode ser às vezes gloriosa, mas é também arrogante e patética. No side project dos Desaparecidos Oberst abandona largamente a temática do amor para se debruçar em críticas à sociedade moderna, as quais funcionam principalmente devido ao seu toque humano. As pretensões de Oberst são mantidas sob controle porque em vez de choramingar sobre os seus próprios desgostos, as suas canções falam das vidas de outras pessoas, o que o obriga a olhar para além de si; como pano de fundo temos o Rock violento, catastrófico (no bom sentido) dos Desaparecidos, canções que gritam, batem e ameaçam com o suicídio. Paradoxalmente, o momento mais comovente de "Read Music/Speak Spanish" acontece quando Connor deixa a análise social e volta a si mesmo, tecendo uma auto crítica com a qual qualquer ex-idealista de esquerda se poderá facilmente identificar: "well, I should talk/I'm just like them/buy my records down/at the corporate chain/I tell myself I shouldn't be ashamed...BUT I AM!!!"

4-"Yankee Hotel Foxtrot", Wilco

Nunca falha: cada vez que um grupo insere na sua música efeitos sonoros e se dedica ao trabalho em estúdio no molde Beatles/Beach Boys os críticos ficam com baba na boca. Na verdade, seria demasiado dizer que "Yankee Hotel Foxtrot" é um disco inovativo; fiquemo-nos por dizer que é acima de tudo um disco bonito. A raiz dos Wilco encontra-se nos Uncle Tupelo, considerados por muitos como sendo a primeira banda do Alt Country (estilo que pretende fundir a música Country com uma atitude mais Punk e muitas vezes purista); depois do fim desse grupo um dos seus anteriores membros, que dá pelo nome de Jeff Tweedy, iniciou uma nova banda que, apesar de não renunciar as raízes Alt Country, aproximou-se sempre mais do Pop/Rock tradicional (no estilo, mais uma vez, dos Beach Boys e dos Beatles.)

Os seus esforços anteriores nunca me conseguiram realmente convencer, mas com "Yankee Hotel Foxtrot" os Wilco conseguiram fazer um disco "da velha escola", uma obra de cunho tradicionalista que vence pelo harmonia que consegue estabelecer entre a tristeza e a beleza. "I Am Trying To Break Your Heart" e "Ashes Of American Flags" enchem qualquer sala de melancolia; "Heavy Metal Drummer" e "I'm The Man Who Loves You", pelo outro lado, são canções claras e divertidas, sem por isso lhes faltar profundidade.

3-"Under Construction", Missy Elliot

Apesar de já ter sido adorada pelas massas por muitos anos, foi apenas em 2001 que Missy Elliot ganhou o respeito da imprensa, com o irresistível "Get Ur Freak On". Com o desfalecer dos preconceitos que ainda há pouco dominavam o mundo da crítica, esta grande artista finalmente começou a receber os louros que lhe eram devidos. Quando Elliot lançou "Under Construction" em 2002, já quase todos tinham começado a perceber que Missy, e sua pareceria de produção com o genial Timbaland, merecem a maior atenção e o maior respeito. Quando produz outros artistas, esta dupla distingue-se por um som morno, profundo e misterioso; em "Under Construction", disco que foi concebido como uma carta de amor aos tempos iniciais da música Hip-Hop, os sons são mais esquisitos, caóticos, exóticos e divertidos, o que é claro constitui um perfeito pano de fundo para os hilariantes raps dadaísticos da própria Elliot. Um disco altamente simpático e dançável, mas que também possui um lado mais escuro em canções como "Pussycat" e "Ain't Nothin' Out There For Me", cujo tema de obediência incondicional às vontades do homem por parte da mulher lançam muitas dúvidas: estará Missy Elliot a satirizar esse tipo de atitudes? A criticá-lo? A descrevê-lo, apenas? Há muito mistério atrás do carnaval.

2-"Blood Money", Tom Waits

Da primeira vez que ouvi este disco, estava a dar na televisão um episódio do "Gregos & Troianos", falando da então recente legalização das touradas de morte no território de Barrancos. Foi a banda sonora perfeita - e isto em si já diz quase tudo que é preciso saber sobre "Blood Money".

Tom Waits, que já tem feito carreira como cantautor desde os anos '70, sempre dividiu a sua obra em duas partes, que por vezes se misturam mas que possuem identidades distintas: por um lado temos o melancólico criador de chorosas baladas (este aspecto foi focado noutro excelente álbum lançado por Waits em 2002, "Alice"), e pelo outro temos o cientista louco, construindo aberrações sonoras enquanto grunhe e uiva com a sua voz de monstro das bolachas. É este o lado de Waits que vem à tona em "Blood Money", uma viagem ao inferno, aos recantos mais sangrentos da alma humana. Aterradoras verdades (meias verdades, mas que no momento soam a verdades) são lançadas à nossa cara com uma precisão genial e um génio cruel - "God's away on business!", "Everything goes to hell anyway!", "if there's one thing you can say about mankind/there's nothing kind about man". E em todo este terror, Waits tem o cuidado de mostrar fragilidade humana suficiente para que possamos relacionar-nos às suas visões. O que apenas nos deixa mais aterrorizados.

1-"Original Pirate Material", The Streets

Veio do nada e conquistou o panorama musical britânico. The Streets, pseudónimo de Mike Skinner, fez um álbum que é Garage mas que não é Garage, que é Hip-Hop mas que não é Hip-Hop, que irrita todas as "cenas" já estabelecidas no Reino Unido por não ter nem um mínimo de credibilidade e que no entanto é tão genial, tão novo, tão entusiasmante que conseguiu fazer com que muitas mais pessoas (inclusive eu) se interessassem por estas mesmas cenas, em busca de algo que pudesse replicar a sensação que sentimos quando ouvimos pela primeira vez "Original Pirate Material".

Este disco não só é perfeito, digo eu, como também é importante, na medida em que (juntamente com "Run Come Save Me" do Roots Manuva e a So Solid Crew) teve um contributo imenso para o maior reconhecimento da cena de música estilo "Urban" da Grã-Bretanha, a qual nos tem dado alguns dos maiores talentos dos últimos anos, nomes como Ms.Dynamite, More Fire Crew, Dizzie Rascall e Fallacy...estes artistas não foram decerto inspirados por Skinner, mas sem o estrondoso sucesso de "Original Pirate Material" nunca teriam alcançado o nível de popularidade do qual hoje gozam. Com a sua distinta pronuncia britânica, Skinner dá-nos um retrato alucinante da vida nas grandes cidades inglesas, variado tanto no som (Hip-Hop, Dub, Garage, tudo num formato "sujo e barato" como diria o bom e velho Sam The Kid) como nas temáticas (para além da tal evocação da vida das cidades, também há romance, nostalgia e uma canção chamada "Turn The Page" na qual Skinner assume o papel de um gladiador romano.) Lunático. Imprevisível. Completamente exuberante.



* Não dou link, porque ele não precisa.


segunda-feira, julho 21, 2003
 
Hoje tinha um encontro marcado para as três e meia. Devido a circunstâncias fora do meu poder de legislação, atrasei-me um bocadinho e só cheguei ao café às três e quarenta. A rapariga com a qual eu tinha marcado o encontro ainda não estava lá; pedi uma coca-cola e sentei-me.

Passaram dez minutos. Eu não telefonei, porque não sou o tipo de rapaz que pressiona as miúdas - sou um ser compreensivo, que entende os atrasos dos outros.

Passaram vinte minutos. Eu continuei sem telefonar, porque sou daqueles que são ultra compreensivos.

Passaram trinta minutos - comecei a notar que tinha levado uma tampa. Não foi surpreendente, porque eu sou daqueles que levam tampas. Peguei no telemóvel e, com um certo sarcasmo, mandei uma mensagem a dizer "atrasos?"

E eis que recebo uma de volta, a explicar que a rapariga chegou as três e vinte e cinco e foi-se embora às três e quarenta, porque pensava que eu já não vinha.

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Eu não sou daqueles que deixam esperar uma miúda!

Repitamos:

Eu não sou daqueles que deixam esperar uma miúda.

Não, não, não, eu não pertenço àquela corja de selvagens sem razão nem consciência que deixam que uma nobre donzela passe minuto após minuto a esperar a sua chegada!! Eu sou atencioso, sensível, e nunca me passaria na cabeça deixar que alguém vá para casa irritado por ter estado à minha espera sem que aparecesse! Longe de mim planear actos tão vis e ignóbeis, e contudo encontro-me agora culpado desse horrendo crime!

Mas porque é que eu não mandei uma mensagem a dizer que chegaria tarde?

Mas porque é que não mandei uma mensagem a perguntar onde ela estava depois de ter esperado dez minutos???

Estou inconsolável, meus senhores, inconsolável. Isto não se faz! Considerando-me um homem honroso, só me restam duas hipóteses - o exílio ou o suicídio. Visto que já tenho os bilhetes, optarei pelo primeiro caminho.

Mas francamente! Deixar que alguém ficasse especado à minha espera sem lhe realizar o desejo! É que é preciso ter mesmo muita lata! Já nem me posso ver ao espelho, com vergonha do pérfido vilão que me olhará nos olhos.

É nisto que dá um homem adulto passar o tempo a ouvir discos do Jonathan Richman.