Filosofia & Bolachas



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domingo, julho 20, 2003
 
deslizar no sonho, começo a entender alguns dos "muros" que estão a dificultar aqui a comunicação:

O meu background enquanto crítico tem sido sempre a cultura pop, e mais especificamente a música popular.

Ocorre-me agora o facto muito elementar de que a crítica desta funciona de modo deveras diferente da crítica de "teatro, danças, exposições", e também da de certas formas de cinema.

Para ser mais claro: dizer que "Desde sempre a crítica não tende a divulgar mas a restringir a fruisão do valor artístico a um circulo de espíritos eleitos, de pessoas de cultura; uma vez que nesse círculo se integram aqueles que, pela sua condição social, estão em posição de exercer influência sobre a produção artística , a crítica tende ( e muito) a orientar o gosto, no sentido de criar condições mais favoráveis à afirmação da tendência artística considerada de dar os melhores resultados." é, no contexto da música popular do século XX, quase impensável - existem, é certo, grupos e "movimentos" que atingiram sucesso devido ao apoio da crítica (principalmente no meio britânico), mas esses são normalmente considerados piadas fora do pequeno meio no qual estão inseridos. O crítico pop (no modelo iniciado nos anos '60 por críticos americanos como Christgau, Marsh, etc.) não dita os gostos do público tanto como reage e os interpreta. Quanto aos indivíduos de alta posição social com poder para determinar o sucesso de correntes artísticas, estes são na música Pop principalmente empresários cínicos que não se importam mínimamente com o que os críticos dizem, mas sim com o que vende.

Decorre também desse background Pop o meu recorrer ao mercado americano - por um lado porque é o mercado mais importante do mundo, e tudo que acontece nele há de influenciar também o que acontece em Portugal, e por outro lado porque (pelo menos do que eu li) não existe crítica Pop em Portugal. As críticas escritas na "Blitz" (que, não haja dúvidas, eu leio e aprecio) estão normalmente ainda escritas com um estilo deveras seco e académico, como se o último disco dos More Fire Crew fosse um texto religioso do século XXI. Talvez não foi sempre assim (o meu conhecimento da história Pop em Portugal não é, devo admitir, grande coisa), mas na crítica musical da imprensa portuguesa hoje não vejo nenhuma influência do estilo gonzo de Bangs e Meltzner, do autentícismo de um Dave Marsh, do sarcasmo highart/popart de um Robert Christgau; enfim, não vejo traços de crítica Pop.

Admito que a crítica fora da "cultura de massas" possa ser outra coisa - admito que em áreas da cultura como o teatro, as exposições, a dança e a literatura, as quais são hoje mantidas vivas por o que se poderá chamar (sem com essa palavra querer fomentar preconceitos) elites culturais, a crítica poderá ter um papel muito mais essencial no que diz respeito à divulgação de artistas e movimentos. Como se insere aqui o cinema, não sei dizer (nunca consegui atinar com o cinema), mas parece-me talvez que também aqui exista uma fronteira entre cinema "pop", que determina as tabelas de vendas e que não se deixa influenciar muito pela crítica, e cinema "artístico". Não me arrisco a desenvolver essa teoria, sei pouco sobre o assunto.

Ora bem, não quero agora dizer que todas as nossas diferenças de opinião sobre a crítica venham apenas desse contraste entre a arte popular e a "outra" - mas serão talvez essas diferenças um factor importante numa certa dificuldade de comunicação que se está a desenvolver entre nós. Eu pela minha parte nem gosto de fazer essa diferenciação (num mundo perfeito, não existiria), mas as fronteiras existem, e ignorá-las é ignorar uma realidade. Devo no entanto confessar que nunca pensei no efeito que a crítica poderá ter sobre essas formas de arte mais "escondidas" do público em geral, e que se ontem me tivesse dado a ideia de recensear um livro, teria o feito exactamente da mesma maneira como recenseio álbuns. Também vivo num meio tão isolado, como hei eu de lembrar-me das complexidades das elites culturais dos centros urbanos?

Acho que apesar de todas essas diferenças ainda haveria alguns factores que poderíamos discutir (não alinho no que escreveste sobre actores, por exemplo, porque o "factor de reconhecimento" também é muito subjectivo; ignorante dessa arte que eu sou, eu já cheguei a ver dois filmes com o Roberto DeNiro sem notar que era o mesmo actor), mas deduzo do teu "desesperadamente" que já estás farta de discutir. Eu nessas coisas sou terrível, continuo sempre os debates mesmo quando os outros já estão fartos; simplificando muito as coisas poderá se dizer que gosto de implicar. Mas porque sei que isso é um defeito, deixo-te a última palavra e concluo aqui a minha parte nesse debate, que espero que tenha sido estimulante e empolgante para os nossos leitores ("e que nos deu a ambos muitas visitas por causa dos links!" diz a minha mente Pop.)




sexta-feira, julho 18, 2003
 


A primeira canção do novo álbum de David Fonseca, já devem saber, chama-se "The Eighties" e é extremamente auto descritiva. Um som totalmente New Wave, activo e colorido, completamente diferente da obra anterior do grupo a que o cantor pertence(u?) O resto do álbum está mais perto do mundo dos Silence 4. A Sofia faz falta, pois claro, principalmente porque o David não renuncia àqueles uivos próprios das almas neuróticas na música popular dos últimos dez anos, de Jeff Buckley a Thom Yorke, e que eu nunca soube apreciar. Mas as canções são bonitas, não chegando talvez à leveza do "Silence Becomes It", mas certamente mais elegantes do que a flatulência do "Only Pain Is Real". "Sing Me Something New" poderá ser um disco a solo, mas não é um maçador esforço "unplugged" - basoons, clarinetes, recos, coros e secções de sopro e de cordas dão ao disco uma instrumentação ecléctica, e sons mais doces do que era habitual no escuro mundo dos Silence 4. Para quem não presta atenção às letras, "Sing Me Something New" será um álbum agradável, ligeiramente melancólico e lindo; os raros lapsos de bom gosto a nível musical ("Revolution Edit") serão fáceis de perdoar.

Mas acontece que eu infelizmente importo-me sempre muito com as letras, e pelo amor de Deus David, já não há pachorra! "But words/they cannot love/don't waste them like that/cos they'll bruise you more"; "I'll get rid of the evidence/of all the blood stains in my clothes/all of my self-injuries/I will let none of them show"; "there's a crowd of vultures/that are tightening up the siege/they feed on the random lovers/that fall short on their beliefs"; "you want to drink my soul/'till your heart is full"; "I belong to those who got shattered, battered/bruises and scars that I've hidden you could never heal"; "I will slash down through your soul"; "the wicked deed is done"; "you're afraid/and you blame it all on yourself/as if guilt/will give you strength to keep it on"; "will you bring back all the things that I have failed?/my inner smile/my inner peace/my so called happiness"; "and you're crazy when you think/that I will let you in/my sunshine and my rain/the thoughts I hide away/from all the world to see". Porra, eu já não tenho desaseis anos! É certo que o David Fonseca enquanto letrista sempre foi gratuitamente mórbido e deprimente, mas tudo tem o seu lugar e o seu tempo adequados. Quando saiu o "Silence Becomes It" (e quando eu comprei, e ouvi, e ouvi, e ouvi aquele disco) o tom melancólico das canções foi algo de novo, pelo menos no panorama nacional (note-se que a depressão fonseciana sempre teve mais de Goth do que de Grunge.) Para além disso, a atmosfera de procura do álbum dava a impressão de que Fonseca iria tentar resolver os conflitos das suas canções, que a depressão era o início da sua arte e não o seu todo. Juro que não pensava que ia acabar assim.

Porra, o gajo escreveu uma canção com o título de "Do You Really Believe That Love Will Keep You From Getting Hurt"! Digam-me lá se isso não vos dá também vontade de se trancarem no vosso quarto até que o gajo se vá embora?

Certo também é que existem de facto em "Sing Me Something New" tentativas de quebrar com esse excesso de pena consigo mesmo, neurose pomposa e (chamemos as coisas pelos seus nomes) vaidade e choraminguice - "So You Want To Save The World", "You And I (Letter To S)". No entanto são poucas, e rapidamente esquecidas quando nos deparamos com as montanhas de pueril depressão adolescente que dominam o disco, culminando no hino à isolação cobarde que é "My Sunshine & My Rain".

"I've come to excorcise my demons/to bury those days when only pain was real", canta David no início do disco, o que ainda nos pode fornecer esperanças de que no próximo disco veremos algo de novo; mas mais tarde ele também afirma que "this song will last forever unless someone comes and/sings me something new", de modo que ficamos com a triste impressão de que o futuro deste considerável talento passará apenas por inúmeras repetições das enfadonhas sessões terapêuticas que Fonseca nos obriga actualmente a ouvir, e mais canções tão ridículas como "Revolution (Edit)", que pela sua insistência em recorrer aos lugares comuns e ao vago consegue apresentar uma forte candidatura para o prémio de pior canção de protesto 2003. É nisso que dá um homem adulto passar o seu tempo a ouvir discos dos The The.

("The Eighties", "Someone That Cannot Love", "Playing Bowies With Me" e "Summer Will Bring You Over" teriam dado um EP decente.)


 
CASA COMIGO, WILLOW ROSENBERG!!!







*suspiro*


quinta-feira, julho 17, 2003
 
deslizar no sonho:

Parece-me que dás demasiada importância ao efeito que a crítica tem sobre os gostos do público; de facto, o público em geral pouco se interessa por aquilo que os "entendidos" dizem.

Vejamos por exemplo o top10 dos discos lançados em 2003 mais apreciados pelos críticos de música americanos, segundo a sondagem anual feita pela "Village Voice" :

10-Missy Elliot: Under Construction
9-Coldplay: A Rush Of Blood To The Head
8-Eminem: The Eminem Show
7-The Roots:Phrenology
6-Bruce Springsteen:The Rising
5-Sleater Kinney:One Beat
4-The Streets:Original Pirate Material
3-The Flaming Lips:Yoshimi Battles The Pink Robots
2-Beck:Sea Change
1-Wilco:Yankee Hotel Foxtrot

Desses dez álbuns, apenas seis chegaram ao top20 das tabelas de vendas americanas - os Flaming Lips, os Streets, as Sleater Kinney e os The Roots nem isso conseguiram. De resto, Eminem e Bruce Springsteen chegaram ao topo, Missy Elliot ao #3, Coldplay ao #7, Beck ao #8 e "Yankee Hotel Foxtrot" dos Wilco, o "álbum do ano" de acordo com a imprensa americana, ficou-se por uma modesta posição de #13.

Ainda assim não está mal, mas qualquer seguidor atento da cena musical americana poderá determinar que mesmo os e ganharam também simpatia perante o público não o fizeram por virtude do apoio dos críticos. Bruce Springsteen e Beck são artistas maduros, que ao longo dos anos têm conquistado um público fiel que compra os seus discos independemente do que dizem os críticos. Os Coldplay conquistaram a América principalmente devido ao sucesso que tiveram no Reino Unido (este, sim, um pouco influenciado pela crítica, mas foi mais uma questão de estar no lugar certo à altura certa), e que fez com que o seu label apostasse mais neles. Quanto ao Eminem, será escusado dizer que a sua fama hoje é tanta que é completamente irrelevante o que a crítica possa escrever. A Missy Elliot? Esta já vendia milhões muito antes de os críticos descobrirem a qualidade da sua música.

Não, não somos nós os que ditam os gostos do público, muito longe disso! Para as vendas de um álbum, importam mais os peritos de marketing, os programadores da rádio e os seleccionadores dos programas da MTV do que os míseros críticos de música. Guiamos, quanto muito, pequenos grupos de aficionados que querem crer nas nossas capacidades e que estão à procura de algo diferente do que ouvem todos os dias.

Com a revolução das comunicações, também esses cultos acabarão por desaparecer, visto que com os programas de partilha de ficheiros e com sites, blogs e fórums, será possível cultivar gostos sem recorrer sequer a uma revista de música.

A ponte entre os artistas e o público de certeza não somos. Podemos por vezes sugerir algo que possa agradar a alguém que de outra forma não o teria ouvido; ou podemos fazer com que alguém não compre um disco que planeava comprar. Mas são casos isolados. As função da crítica hoje, digo outra vez, é a de engrandecer a arte, não de determinar os gostos do público. O crítico hoje escreve principalmente para aqueles que gostam de pensar sobre a arte, para aqueles que derivam prazer do acto de análise da música; aqueles que apenas querem saber quais são os últimos bons discos à comprar, terão outras vias, mais rápidas e menos ambíguas, de o descobrir.

A interpretação "justa", cientifica e de qualidade que mencionas não poderá nunca existir, porque a arte não se deixa definir assim. Qualquer crítico que adopte critérios científicos irá acabar por elogiar discos dos quais não gosta (porque os gostos não se submetem a regras), o que tira o poder à sua escrita e como tal também lhe tira o sentido - só um crítico genuínamente entusiástico poderá escrever uma recensão de valor. Nem poderá ele quiçã estabelecer através desse seu sistema objectivo uma maneira de dar a conhecer ao público os discos de que irão gostar. Não existem qualidades objectivas que podem definir a boa música, a boa literatura ou o bom cinema. É isso que faz a arte ser arte! O quão maçadora seria se houvesse uma fórmula para a concretizar...

Continuidade e coerência? Meu Deus! Coerência será a última coisa que um artista pretende; será também um factor que pode fazer com que o público pare de gostar dele. Mas então não são as surpresas, as mudanças súbitas de estilo, as metamorfoses que nos fazem continuar a ficar interessados em muitos artistas? A Madonna deve a sua carreira em grande parte à sua falta de continuidade; o mesmo se poderá dizer do David Bowie. O que não quer por outro lado dizer que será a mudança o factor que define os bons artistas, porque também há aqueles que beneficiam do seu estoicismo (AC/DC, New Order.) Não há regras.

E finalmente: toda a crítica só poderá ser uma sugestão, mesmo se tem ares de imposição. Cada ouvinte decide por si, e graças a Deus que é assim.


 
Quero que já seja Terça Feira.

Sabem porquê?

É que Terça eu inicio a minha grande viagem de Verão pela Europa afora. Lisboa, Madrid, Barcelona, Paris, Londres e Hamburgo! Transportado elegantemente pelos nobres comboios europeus e protegido pelo bilhete Interrail, irei descobrir as maravilhas desse nosso decrépito e irrelevante continente, antes que seja tarde demais.

O meu companheiro de viagens vai ser o John. Nunca vos falei nele? Haverá sequer razão para o fazer, neste blog que sempre se prezou por não cair na tentação de se tornar diário pessoal?

Sei lá eu se há, nem me importa! A verdade é que o John é o meu melhor amigo. Verdade também é que só o vi duas vezes na minha vida.

Sim, eu sou um espécime dessa raça que cultiva "webfriends", amigos conhecidos pela internet. Claro está que isso faz com que, aos olhos do público em geral, eu seja ou um freak ou um ingénuo, porque afinal não é normal ter amigos que quase nunca se vê. É só ver as reportagens que passaram ontem no Telejornal da RTP1 aquando do resgate de uma rapariga britânica de doze anos que tinha fugido (ou sido raptada por? Ainda não se sabe) com um ex-GI de trinta e um anos que tinha conhecido pela internet. Usaram logo o tema para aumentar aos pais as paranóias de que os seus filhos possam acabar violados ou mortos por um psícopata qualquer que tenham encontrado na internet. Existem preocupações genuínas, é claro - os tarados existem, mas o que eu noto nessas reportagens é um ar de amargura, como se não estivessem preocupados tanto pelo que pudesse acontecer aos filhos como pelo facto de os filhos terem encontrado um mundo que eles simplesmente não podem controlar.

Voltando ao assunto - já conheço o John há quatro anos. Damo-nos bem por várias razões: ambos temos uma identidade nacional mal definida (sendo eu um alemão a viver em Portugal e ele um sueco a viver nos E.U.A.); ambos partilhamos o gosto pelos livros e pela música; ambos somos ex-socialistas em vias de recuperação, errando pelo mundo sem saber no que devemos realmente acreditar (há uns meses atrás decidimos que queremos ser humanistas; havemos de ver no que isso vai dar...), e ambos apreciamos uma boa dose do surrealismo na nossa vida. Também existem porém diferenças- ao meu ser neurótico, nervoso, irrequieto e frequentemente deprimido, o John opõe um temperamento calmo, agradável e quase merecedor do termo americano mellow. O Alberto Caeiro para o meu Álvaro De Campos, talvez.

Uhm, e já agora - quem souber de lugares de visita obrigatória nas cidades que eu mencionei, qualquer sugestão é bem vinda. Eu já tenho uns esboços, mas planear é uma actividade tão chata...


 
Ai, ai, MTV Portugal...Lúcia Moniz, Blasted Mechanism, David Fonseca - que falta de coragem na escolha dos artistas portugueses a incluir na programação! Ora, hoje até vi um teledisco dos GNR. Dos GNR, Deus meu! Se querem passar coisas dessas, que se faça uma VH-1 portuguesa, que eu também a verei com todo o gosto! Mas a MTV não é lugar para veneráveis veteranos, é um lugar para o que há de novo. Ainda não vi Valete, Sam The Kid, NBC...nem mesmo Mind Da Gap ou Da Weasel! Não que eu queira que se passe exclusivamente Hip-Hop, mas a verdade é que é aí que se encontra a maioria do talento de juventude que cá temos.

A MTV Americana pode ter muitos defeitos - o facto de todos os seus apresentadores serem deficientes mentais, por exemplo, ou o facto de acharem correcto passarem telediscos dos Creed - mas numa coisa é implacável: a sua programação dá mais espaço ao Hip-Hop do que qualquer estação de rádio Pop dos E.U.A. De facto, é só na MTV que Rock, Pop, Hip-Hop e Soul se continuam a misturar no panorama musical americano. E nós? Ficamos com a Lúcia Moniz! Provavelmente também com o João Pedro Pais, que ainda não o vi por lá mas de certeza que há de aparecer também. Whatever...


quarta-feira, julho 16, 2003
 
Continua o debate com deslizar no sonho:

A crítica, e assim está definida, é a arte de julgar o mérito das obras literárias, artísticas ou científicas, é o exame e a apreciação que se faz de uma obra, pelo que, discordo que a encare como uma arte menor, pois poderá ser um óptimo pretexto para que, levianamente e publicamente, qualquer um possa avaliar a arte de outro.

As definições servem para serem mudadas. O positivismo caiu, a relatividade dos valores existe (na arte mais do que em qualquer outro lugar), e a crítica da forma como a defines seria realmente uma actividade inútil e arrogante, visto que não existem valores objectivos que possam determinar o valor de uma obra de arte, a não ser talvez o número de álbuns vendidos. Estaríamos portanto perante um mundo no qual a Celine Dion é objectivamente superior ao Nick Cave, e nenhum de nós quer isso.

A forma de crítica que a definição dada aqui pode produzir (no melhor caso) é um processo cientifico, frio, racional e sem amor à arte. O mais perto que se pode chegar à determinação de se uma obra de arte é "boa" ou não será tentar determinar se uma obra de arte irá agradar ao seu público alvo ou não, o que deveras pode ser feito (o melhor exemplo será o All Music Guide, se bem que ultimamente se tem desviado desse caminho), e poderá até ser uma tarefa nobre, mas não corresponde decerto ao que hoje conhecemos por crítica.

Não, a crítica como arte funciona de maneira completamente diferente, baseando-se acima de tudo na capacidade que um crítico tem de interagir com a arte, de a interpretar de novas formas e de a assim engrandecer (mesmo numa recensão negativa.) Este crítico não serve de "guia das compras", mais como "guia de ouvinte". A sua tarefa é encontrar novos mundos na arte, adicionar os seus pensamentos ao objecto de arte e, através disso, fornecer aos seus leitores a possibilidade de encararem a obra de arte de uma nova forma - a avaliação do disco que faz, seja positiva ou negativa, é quase irrelevante. Esta tarefa, por virtude de ser basear em emoções, instintos e na sinceridade do autor, é uma forma de arte, ao contrário da "crítica" que referi anteriormente, que é uma ciência.

De facto, todos podem avaliar "levianamente e publicamente" uma obra de arte, tal como todos podem escrever livros horrendos, fazer música pirosa ou filmes estúpidos. Agora, tal como existem bons e maus artistas, existem também bons e maus críticos - quem é quem, isso será determinado de forma subjectiva por cada qual, de acordo com os critérios que temos. Quais são os meus? Bem, acredito que um crítico deverá antes de mais nada saber escrever; depois, deverá ter uma atitude dinâmica e (eh eh) crítica, de forma a que os seus conflitos e os seus amores com a arte sejam fascinantes para o leitor; deverá ter, é claro, uma forte relação com a arte; e, finalmente, deverá ter conhecimentos extensos do tipo de arte que critica, tanto ao nível técnico como ao nível histórico. Estes são os meus critérios; não os imponho aos outros, mas defendo-os, tal como defendo os meus critériosdo que é um bom artista. É que é uma parvoíce dizer que os gostos não se discutem; se isso fosse verdade, não passaríamos tanto tempo a fazer exactamente isso. Discutir o subjectivo será, para uma pessoa puramente racional, uma perda de tempo, mas para uma mente criativa é um desperdício delicioso.

Ou seja: não acredito na "boa" crítica nem na "boa" arte como valores objectivos, mas tenho tanto prazer em ler um crítico que consegue dar-me novos pontos de vista sobre uma obra de arte (de acordo com os seus critérios do que é "bom") como tenho em ouvir uma música que soe "bem" de acordo com os meus critérios pessoais.

Resta explicar ainda porque considero a crítica uma arte "menor" - o que é fácil de fazer. O crítico precisa do artista, enquanto que o artista não precisa do crítico (poderá talvez precisar do ouvinte, mas isso é outro debate.)

Reconheço, é mau despejar um conteúdo sem crítica, mas não me parece muito melhor despejar um crítica sem conteúdo. Enquanto os críticos insistirem em ensinar, em lugar de transmitir tenho sempre a sensação que estão a querer impingir-me o seu gosto ou até a moda do momento.

Concordo e não acredito que muitos dos melhores críticos estão a tentar ensinar qualquer coisa, mesmo que pensem que estão a fazê-lo.

Não gosto (entenda-se, é o meu gosto) das críticas que a todo o custo tentam encontrar o significado e o sentido de algo, pois arriscam-se, muitas vezes, que o resultado seja um significado sem sentido.

Cada obra de arte que se preze tem múltiplos significados, múltiplas dimensões. Isto tanto vale para "Os Maias" como para o último single da Britney Spears. Quem pensa que está a encontrar "o significado" está a iludir-se; o que um crítico poderá fazer é encontrar o seu significado (ou antes, um dos seus significados, porque os gostos também mudam) dentro de uma obra de arte e transmitir esse a outros.

O crítico deve ser, digo eu, um estimulador, convidando os outros a experimentar um pouco de tudo, a saborear e a seleccionar, sem estabelecer requintes às coisas simples ou depreciar as que considera grosseiras.

Um bom ideal, que pode levar a muitas dores de cabeça (sei-lo por experiência própria.) Ainda não sei se o "generalista" (que num dia elogia um poema de W.B. Yeats e noutro um episódio de "South Park") é melhor do que o "especialista" (que entra num estilo e explora todos os seus recantos.) Mas podes imaginar qual é a categoria em que eu me sinto melhor. :)

Pois, já vi muitas críticas más venderem mais bilhetes para determinados espectáculos do que muitas linhas de uma crítica boa.

Os meus gostos muitas vezes não condizem com os do público em geral, pelo que isto não me surpreende mais do que o facto de os Creed venderem mais discos do que os Ballboy. No entanto, surgem aqui complicações - e se uma má (de acordo com os meus gostos, obviamente) crítica vender montes de bilhetes para um concerto da minha banda preferida? Não sou um homem religioso, mas será apropriado aqui dizer que "Deus escreve direito por linhas tortas"?

PS: Também gosto de esquilos e do que tu escreves.



 
Outra boa actividade de férias: decorar poemas. Nas de páscoa, consegui memorizar o "Deslumbramentos" de Cesário Verde. De momento, estou a dedicar-me ao "Lisbon Revisited (1923)" do Álvaro De Campos. Enfim, poemas simpáticos com os quais poderei galantear doces donzelas. Eu sou mesmo assim.


 
A corrente escola de desenhos animados da Cartoon Network (ou seja, desenhos animados dirigidos às crianças mas suficientemente espirituosos para agradarem a adultos, o que não deve de forma alguma ser confundido com séries como os "Simpsons" e o "South Park", que são desenhos animados dirigidos aos adultos mas que, por virtude de serem "bonecos", também apelam às crianças, o que no caso do "South Park" pode ser muito perigoso) tem dois maneirismos bastante irritantes: o primeiro é a tendência para o gross-out, a vontade de usar e abusar de tudo que é nojento (poderá se dizer que isto é o legado de "Ren & Stimpy".) O segundo é a piadinha seca de um personagem começar por dizer algo num tom muito baixinho e depois passar a gritar. Isto até tem graça quando se quer demonstrar que o personagem está furioso, mas certas séries têm adoptado esta forma de falar como registo verbal permanente das suas personagens, o que é extremamente maçador - creio que começou com o Red Guy, do "Cow & Chicken" (que foi sempre a série mais fraca da primeira voga da Cartoon Network- "Johnny Bravo", "Dexter's Lab" e um pouco mais tarde "Powerpuff Girls" e "Ed, Edd & Eddie"), mas alastrou-se rapidamente por todas as séries da estação.

Mesmo assim, tenho-me divertido passando horas e horas a ver desenhos animados - é assim que se devem começar as férias, ora pois. As magníficas "Powerpuff Girls" continuam a ser as rainhas do estilo, é claro, tanto pelas referências à cultura popular (a própria série é, claro está, uma sátira ao estilo anime, e mais concretamente às irritantes "Sailor Moon") como por serem estupidamente divertidas (o Dom, do I Held Her In My Arms, notou uma vez que o gosto das últimas gerações pelos desenhos animados vem principalmente do facto de nos tornarmos adultos depressa demais, ao que eu subscrevo completamente.) Das chegadas novas, gosto principalmente de Grim & Evil", um programa que inclui duas séries - uma com a morte (o famoso grim reaper) a conviver com duas crianças e a falar com sotaque jamaicano (!) e outra que segue as aventuras de uma organização secreta liderada pelo nefasto Evil Con Carne nas suas tentativas de conquistar o mundo. Essa contem um episódio musical que, juntamente com "South Park: Bigger, Longer & Uncut" e o episódio "Once More, With Feeling" de "Buffy - A Caçadora De Vampiros"* (é da série seis, que ainda não foi transmitida aqui) mostra ser um dos pontos altos da renascença do estilo (melhor do que "Chicago" e "Moulin Rogue" certamente é.)

* Verdade seja dita, depois de ter visto alguns episódios fiquei convencido de que os argumentistas de Grim & Evil "inspiram-se" frequentemente em "Buffy". Mas sabem como é, steal from the best e tudo isso...


terça-feira, julho 15, 2003
 
Retiro o que disse sobre a colectânea dos singles dos Ash - da primeira vez que ouvi simplesmente não estava com muito bom humor, e por isso as melodias não quiseram bem entrar na minha cabeça. Há dessas coisas, e é por isso que um bom crítico ouve pelo menos três vezes cada álbum que recenseia.

O que eu nunca tinha notado era o quão distintas são as letras do Tim Wheeler - têm um cariz extremamente lírico, às vezes exagerado ("kisses sweeter than wine"???) Presumo que vem das suas raízes de adolescência, quando era fã dos Iron Maiden; de qualquer forma, é simpático. Ainda mais porque as melhores canções dos Ash até exigem um certo lirismo nas letras, visto que a música dá principalmente a sensação de excitação, de um êxtase espiritual....os Ash cantam principalmente sobre curtos momentos de felicidade, e é isso que torna a sua música tão imediata.


 
Para a Angela (e para todos, visto que nunca faz mal ler um bom conto), descobri:

Contos De Franz Kafka

Eu recomendo vivamente a leitura de "Renúncia!" e "O Jejuador"


 
Para além de ser "apreciador das artes" (o que quer dizer que eu gosto de música que me faz dar pulos e de ouvir contar histórias e que de alguma forma consegui convencer todos os outros de que isto é "alto" e "sofisticado", e não apenas infantil), também sou obcecado pela crítica, a qual considero também uma forma de arte (menor, que as coisas não se confundem!) Não será surpreendente então que quando a Paula do deslizar no sonho decidiu partilhar com a bloglogsfera os seus pensamentos sobre a crítica e o gosto (ver o post com o título de "Pleased To Meet You"), isso fez com que eu tomasse a iniciativa de lhe "mandar um mail" (graças ao "Programa Da Maria" já não posso dizer isto sem adoptar uma pronúncia brasileira) com os meus próprios pensamentos sobre o assunto. Aqui está a parte do mail que se refere a esses assuntos, tornada pública por consenso mútuo, de forma a iniciar um diálogo blogistico entre o "deslizar no sonho" e o "Filosofia & Bolachas" que certamente mudará a forma como a humanidade vê a vida, o mundo e os esquilos. Cá vai:

"Quanto aos críticos: sendo essa a minha profissão escolhida, e tendo passado anos e anos a tentar definir-la, cheguei à esta conclusão: a boa crítica *nada* tem a ver com dizer às pessoas do que elas devem ou não gostar. De facto, uma boa crítica positiva não nos fornece razões porque DEVEMOS gostar de um disco, livro ou filme - o que faz é dar-nos novas maneiras de olhar para um objecto de arte, uma nova perspectiva. Uma boa recensão aumenta as dimensões daquilo que crítica, dá-lhes novo significado e assim aumenta as possibilidades de podermos vir a gostar dela. Já me ocorreu que, depois de ter lido uma recensão bem escrita, passei a gostar de uma canção que antes odiava, ou que (pior ainda) não me dizia nada. Pelo outro lado, às vezes uma crítica revela tudo que eu subconscientemente já adorava num álbum mas que eu nunca soube exprimir por mim próprio, e isso também dá um sentimento de imensa satisfação.

Mas para quê servem então as críticas negativas? Ainda não tenho certeza. Acho que por um lado é uma forma de o crítico poder justificar perante o mundo porquê a obra não lhe fornece prazer (o que, admito, é bastante egocêntrico), e por outro fornece às pessoas que também não gostam dela uma éspecie de consolo. Ambas essas justificações parecem-me um bocadinho fracas, pelo que também já ponderei a possibilidade de que as críticas negativas nem deviam existir - principalmente porque podem ter até um *mau* efeito, assim como podemos a passar a gostar de algo novo depois de termos lido uma boa crítica também podemos passar a não gostar de algo depois de termos lido uma crítica negativa bem elaborada, já me aconteceu - mas acho que um crítico que apenas faz recensões positivas perde um bocadinho a sua integridade, e ignora uma parte essencial da arte - enfim, não podemos gostar de
tudo..."


 
O taxista que me levou hoje a casa - homem de bigodes e quase careca - estava a ouvir uma cassete com o álbum das t.A.t.U.!! Mudam-se os tempos etc.


 
Último exame. Agora é que acabou mesmo. Será que sou o único que se apercebeu, ou será que sou o único que se importa com isso? "Boas férias" dizem-me os meus colegas. Mas então vocês são tolos ou quê?? Já não há férias! Não nos vamos encontrar outra vez todos em Setembro!

Fui-me rapidamente embora. Não sou bom com despedidas.


segunda-feira, julho 14, 2003
 
No meu universo....
1- Os Beatles são superiores ao Rolling Stones
2- O Kleist é superior ao Goethe
3- O Eça é superior ao Camilo
4- Os Clash são superiores aos Sex Pistols
5- A Coca-Cola é superior à Pepsi
6- Os Silence 4 sempre foram superiores aos Hands On Approach (lembram-se dos tempos em que ainda havia debates sobre essa questão?)
7- A Sega é superior à Nintendo, e ambas são superiores à Playstation que pode ter melhores gráficos e melhores jogos e não sei que mais mas não tem alma
8- O Dave Marsh é superior ao Lester Bangs
9- Os Monty Python são superiores ao "Fawlty Towers"
10- O Tolkien é superior ao Terry Prattchett
11- O "Blackadder" é ligeiramente superior ao "Mr.Bean"
12- Os Da Weasel são ligeiramente superiores aos Mind Da Gap
13- As Tartarugas Ninja são superiores aos Power Rangers
14- As raparigas são superiores aos rapazes (duh)
15- O Batman é superior ao Super Homem
16- A DC é superior à Marvel, e ambas são dez mil vezes superiores à Image, que é uma boa merda.
17- A Motown é superior à Stax no que diz respeito ao número de bons discos que produzio; no entanto, a Stax é superior à Motown no que diz respeito ao estilo.
18- Os Blur são superiores aos Oasis; os Pulp, está claro, superiores a ambos.
19- As mix tapes são superiores aos CDRs
20- O Conan O' Brien é superior ao John Stewart
21- As curtas metragens da Warner Brothers são superiores às da Disney
22- O Pato Donald é superior ao Mickey
23- O F Scott Fitzgerald é superior ao Ernest Hemingway
24- O Fernando Pessoa é superior ao Mário De Sá-Carneiro
25- Eu sou superior a vocês todos.

Dúvidas?