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domingo, julho 06, 2003
 


O facto de os compiladores de "Nação Hip-Hop: Dez Anos De Hip-Hop Em Portugal" terem optado por uma sequência não cronológica no disco não diminui as diferenças entre os sons inocentes de anos passados e a cena actual: militante, profissional, determinada, com rimas do mais alto nível e samples de grandes mentes como Almada Negreiros e Eric Cartman. Quando colocados ao pé de esforços tão focados como "Não Percebes" de Sam The Kid ou "Nossos Tempos" de Valete, clássicos como "Nadar" de Black Company e "Velhos Tempos" de Boss AC parecem realmente anacrónicos, artefactos de uma era perdida que custa mesmo acreditar que alguma vez existiu, se não tivessemos nós também vivido nela. Estas faixas soam hoje datadas e, no caso de "Nadar", quase amadoras, mas nem por isso deixam de ter um imenso charme.

As faixas dos "gigantes" da história do Hip-Hop nacional, Da Weasel e Mind Da Gap, pelo contrário, continuam a ter um som magnífico o suficiente para justificar as suas posições actuais de reis da cena portuga. É verdade que o som de "Todagente" tem um teor um bocadinho primitivo quando comparado com a força sonora com a qual me deparei este ano na Tenda Dos Bombeiros, mas mesmo assim a produção pode dizer-se igual ou até mesmo superior à muitos dos esforços mais recentes nesta compilação, e quanto às rimas, mostram bem que Pacman já na altura era (como continua a ser hoje) um dos mc's mais sofisticados do país. "Todagente" suscita lembranças ("toda a gente critica o telemóvel do vizinho", "toda a gente fala da situação em Timor"), mas a sua mensagem continua a ser muito actual, evitando o sabor a sermão por via do humor (o pedido pelo cafézinho faz-nos pensar que o próprio MC que critica a inércia e o conformismo dos outros também partilha os seus defeitos) e atingindo um dos seus pontos altos já no primeiro verso: "toda a gente quer ser muito moderna/mas a tacanhez, essa há de ser eterna". Quanto aos Mind Da Gap, um conhecido meu disse uma vez que "rappam como um bando de expatriados", comparando-os assim aos indivíduos que, por terem cometido crimes nos E.U.A. e terem nacionalidade portuguesa, são deportados aqui para os Açores. Achei uma descrição muito bem conseguida - se bem que ele, na sua ignorância, estava a usá-la como um insulto, e eu (está claro) uso-a como um elogio.

Claro está que a grande maioria das faixas em "Nação Hip-Hop: Dez Anos De Hip-Hop Em Portugal" são de anos recentes - já elogiei várias vezes aqui o corrente boom do estilo, e para que esteja clara, afirmo mais uma vez a minha posição: o Hip-Hop português, tanto pela forma como abraça as influências das comunidades estrangeiras (principalmente africanas) e dar voz à muitos aspectos do nosso país que antes eram ignorados, como pelo desprezo que recebe dos pseudo-sofisticados e pela simples e palpável atmosfera de triunfo que está hoje a sentir, é o sector mais vital da música portuguesa contemporânea. Tendo dito isto, nunca é mal apontar as falhas: de momento, relacionam-se principalmente com a produção, onde existem tendências crescentes tanto para o melodrama como para um primitivismo deveras maçador; ainda ninguém conseguio criar um som cheio, ainda há muito de esquelético nesta música. Talvez tenha também a ver com a omnipresença do Sam The Kid: "não sou grande produtor", diz o mui estimado MC no seu (já clássico) "Não Percebes", e tem razão - as suas qualidades como MC e como "caça talentos" são muito maiores do que o seu valor enquanto DJ/produtor, como qualquer pessoa que ouviu o seu pegajoso álbum de instrúmentais, "Beats Vol.1 - Amor" pode constatar.

Mesmo assim, "Nação Hip-Hop" é um álbum essencial para quem só agora acordou para o Hip-Hop portuga ou que (como eu) por restrições de tempo ou de dinheiro, prefere manter-se "turista". Esta cena está a produzir resultados tremendos (muitos dos melhores temas do álbum são de 2003: "Só Posso Ser Eu" do Ace, por exemplo, é nada menos do que uma obra prima), e só mostra sinais de estar a crescer e a tornar-se cada vez mais importante. Não fiquem de fora. Para quem antes não atinava com essas cenas de "rap", este álbum poderá ser uma revelação; para quem (como eu) até há pouco se limitava a seguir principalmente a cena do estrangeiro, convêm notar que o presente português oferece um clima refrescante quando comparado com a estagnação do meio americano: talvez a maior virtude do Hip-Hop português é que aqui nunca houve a cisão entre o político e o comercial, o que quer dizer que por agora ainda não vamos ter de sofrer nem Nellys nem El-Ps.


sábado, julho 05, 2003
 
Uma razão para nos sentirmos felizes por vivermos em Portugal: quando na Alemanha nos deparamos com a incompetência, o caos e o sadismo da burocracia, isso é "kafkiano" e como tal exemplo da terrivel opressão do indivíduo por parte de uma sociedade fria e maléfica. Quando aqui nos encontramos perante a mesma situação, esta é apenas "queirósiana" e como tal prova da hilariante incompetência da nossa simpática nação. Pode parecer à primeira vista deprimente mas é uma posição mais saudável a longo prazo.


quinta-feira, julho 03, 2003
 
A MTV Portugal (que se vai estrear dentro de algumas horas) tem um potencial enorme - o clima actual da música portuguesa encontra-se bastante propício à criação de um canal de telediscos. O mais importante será sem dúvida o apoio forte e incondicional à cena Hip-Hop nacional, que está agora a atingir o seu auge; Anjos e afins não aparecerão de certeza (os equivalentes germânicos deles nunca aparecem na MTV Germany); mas a maior dúvida que tenho é saber como irão tratar a malta hard 'n' heavy, e se os irão sequer tratar. Um programa de Heavy Metal (Heavy Metal à sério, não Nu Metal, que esse de certeza vai passar de cinco em cinco minutos, não podemos fazer nada contra isso) seria uma excelente ideia - menos bom seria se simplesmente incorporassem vídeos de Iron Maiden e Craddle Of Filth na programação normal. É que sabem, eu tenho muitas simpatias pelos pobres headbangers, marginalizados pelo triunfo do odioso Nu Metal e pela direcção comercial dos Metallica, mas ter que ouvir as suas músicas, isso é que já não.


 
E já que estamos a falar em guerra: o conflicto do Iraque lançou uma questão que ainda hoje ocupa os meus pensamentos - em que medida é que uma pessoa pode dizer-se contra a guerra mas "solidária com as tropas"? Na maioria das guerras, esta questão nem se põe, visto que os soldados são jovens inocentes forçados a travar batalhas que não são as deles e que muitas vezes nem sequer entendem. Mas o que deu cabo desse esquema no último conflicto foi que tanto nos Estados Unidos como no Reino Unido o serviço militar é voluntário, e na Grã-Bretanha os soldados até podem recusar participar em qualquer conflicto se não o acham ideologicamente defensível. Como encarar então este tipo de soldado, que se lança na chacina por vontade própria? Quanto a mim, as minhas dúvidas tomam principalmente a forma de um conflicto entre a minha predisposição para admirar quem está preparado para morrer por algo, e a minha predesposição de odiar quem está preparado para matar por algo.


 
Um bom cocktail para passar o dia todo deprimido: o anteriormente referido último episódio da série Blackadder, a cena final do Gangs Of New York, e a canção "And The Band Played Waltzing Mathilda" dos Pogues. Irra, e nem sequer há de momento uma guerra para justificar esta melancolia (ou há? De certeza que sim, há sempre uma algures...)


terça-feira, julho 01, 2003
 
Hoje à tarde vi no canal História um documentário sobre a famosa Lost Generation (geração de escritores que inclui, entre outros, Ernest Hemingway, F Scott Fitzgerald e Ezra Pound.) Não estava muito bem feito (traçou apenas as linhas gerais da génese do movimento, sem desenvolver muito), mas foi notável porque foi atravês deste documentário que finalmente descobri a verdadeira razão do titulo que foi atribuido a essa geração. Gertrude Stein, uma espécie de mentora/mecenas do movimento, tinha começado a estranhar mais e mais os comportamentos dos seus protegés, homens brilhantes que desperdicavam a sua vida em decadentes noitadas. Depois de uma conversa com um dono de café francês, chegou à conclusão que a etápa da vida na qual o Homem aprende a ser civilizado decorre dos 18 aos 25 anos...ora bem, Hemingway & Companhia nesta fase das suas vidas estavam a lutar na 1ª Guerra Mundial, e como nunca tiveram oportunidade de passar por este processo...e por isso todos estes génios, com toda a sua creatividade e todo o seu intelecto, não passavam de uma geração perdida, sem cura possivel.

Mais tarde, vi o último episódio de uma caixa de DVDs que comprei há umas semanas atrás com todas as séries do programa britânico "Blackadder", programa esse que acompanha a personagem principal (cujo papel é desempenhado por Rowan Atkinson, mais conhecido por aqui como Mr.Bean) e os seus companheiros durante quatro incarnações em periodos diferentes - a primeira série passa-se na Idade Média, a segunda no Renascimento, a terceira no século XIX e a última nas trincheiras da primeira guerra mundial. Normalmente, o programa é hilariante, mas este último episódio teve (como não poderia deixar de ter) um teor mais sério. Não faltaram piadas, mas também não houve quaisquers hesitações em afirmar o terror e a locura da época. O episódio acaba com a morte - não de génios, mas sim de pelintras, paspalhos, malandros e idiotas, o que (e a série consegue transmitir isso de forma excelente) não é menos trágico.


 
Um dos traços mais caracteristicos do meu ser - e uma das razões por causa das quais optei pela carrreira de crítico - é a minha imensa (e por vezes irritante) vontade de partilhar os meus gostos. É rara a ocasião em que oiço um disco, vejo um DVD ou leio um livro sem pensar "(x) era capaz de gostar disto!" Os meus amigos mais próximos são submetidos quase diáriamente a recomendações de novos ítens de pop culture que eu acho que eles poderiam apreciar. Uns acabam por ficar zangados comigo, pensando que eu não acho que eles têm as capacidades para encontrar coisas de qualidade sozinhos e acusando-me (com alguma razão) de ter manias de professor. Outros absorvem as minhas frequentes sugestões de tal modo que após uns meses também se tornam "viciados da cultura" como moi, e eu fico atrás numa pose de Dr.Frankenstein.

Mas é difícil transmitir o meu entusiasmo, principalmente quando não tenho à minha disposição o reino da escrita e tenho que tentar convencer o meu parceiro apenas através das minhas capacidades verbais (que não são assim tão boas.) Às vezes nem sei por onde começar...como explicar que os clássicos da literatura portuguesa podem ser mais do que apenas enfadonhos calhamaços das aulas de Português? Como fazer com que as pessoas olhem para além das superficies pirosas de estilos musicais como o Hip-Hop e o Country e consigam entender a beleza da sua essência? E porquê é que eu acho que isto é a minha "missão", porquê chatear as pessoas com conversas se eu nem sequer sei se elas querem realmente descobrir essas coisas novas ou se elas estão muito bem as it is, thankyouverymuch? Não me considero superior por ter um bocadinho daquilo que as pessoas chamam "cultura"; não é mérito meu, aconteceu devido à uma série de acasos, a minha educação, os meus genes. De certeza que existem pessoas mais dignas de terem os meus conhecimentos do que eu. É também isso (para além da motivação mais egoista de querer ter alguém com quem possa discutir sobre as coisas que consomo) que me impulsiona para estas tentativas fránticas de partilhar o que é meu: sei que nem toda a gente tem a minha sorte nem os meus meios. Mas é difícil, e depois há as coisas que não são possíveis serem partilhadas: toda a gente devia ter o direito de ter visto uma vez na sua vida Londres, mas poucos chegam a ter esta experiência. Não é justo.

"Bad Ambassador" ("Mau Embaixador")
Dos Divine Comedy/Escrito por Neil Hannon
(Traduzido por Daniel S. Reifferscheid)

Quero 'tar na boa
Quero ficar quieto
Quero dormir como os mortos numa cama de rosas
Eu e a minha adorável esposa
Estamos no auge da vida
Quero sentir-me real, quero andar por aí
Quero ser a maior estrela do espetáculo
Quero dar-te tesão
Isso não é o suficiente?
Quero descer da minha torre de marfim
E comprar um Jaguar

Sou um mau embaiaxador deste lugar, tão difícil de encontrar, que queres atingir
Quero mostrar-te tantas outras coisas....bem, fica p'rá próxima vez

Quero jogar com os rapazinhos grandes
Quero andar de moto japonesa com os gajos duros
Quero segurar a tua mão
Ei, qual é a tua banda preferida?
Quero ter o aspecto que Eles tinham
Quero tremer como Eles tremeram, quero tomar o que Eles tomaram
Quero que fiques tripada
Não me perguntes porquê...
É apenas algo que tenho de fazer
Tentarei compensar-te por isso um dia

Sou um mau embaiaxador deste lugar, tão difícil de encontrar, que queres atingir
Quero mostrar-te tantas outras coisas....bem, fica p'rá próxima vez

Não sou o Papa nem quero ser o Arcebispo de Canterbury

Sou um mau embaiaxador deste lugar, tão difícil de encontrar, que queres atingir
Quero mostrar-te tantas outras coisas....
Sim, poderia mostrar-te tantas outras coisas...
Mas sou um mau embaixador...

Bem, fica p'rá próxima vez


segunda-feira, junho 30, 2003
 
Digam à universidade que já pode voltar a mexer-se; chegou um novo candidato para o trono de Anúncio Mais Irritante Na Televisão Portuguesa.

É uma campanha anti-tabaco, centrada em dois adolescentes (um rapaz e uma rapariga.) Ela gosta de "moda" e de "correr riscos", ele gosta de "música" e de "sair com os amigos", e ambos dão me vontade de fumar sete maços de cigarros por dia (notem bem: eu sou não-fumador.) . Embora que os spots sejam curtos, conseguem transmitir de forma soberba as personalidades das duas personagens. São o tipo de pessoas que passam o dia todo com um sorriso emplastrado na cara, mas que confessam aos amigos que às vezes também se sentem tristes. O tipo de pessoas que usam termos como "radical" e "bué de fixe" sem distanciamento irónico. Pessoas que acham que têm uma geração inteira que partilha os seus pacatos valores e medíocres aspirações. Pessoas que agem como se tivessem saído de uma série para adolescentes. Pessoas que já leram cinco vezes "Os Filhos Da Droga", mas que nunca leram "Junkie". O tipo de pessoas que eu detestava quando tinha treze anos. O tipo de pessoas que eu ainda hoje detesto. Antes apanhar cancro do que ter de conviver com este tipo de escumalha.