Filosofia & Bolachas



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domingo, junho 15, 2003
 
Há certas músicas que me criam mundos inteiros na cabeça. Quando oiço o "Lover I Don't Have To Love" dos Bright Eyes, imagino um circo abandonado, com fantasmas de acrobatas mortos em stunts falhados e palhaços à Stephen King. Normalmente isso seria um tanto barato (acho que há um clip dos Guano Apes que é qualquer coisa parecida à isso), mas com essa música fica um ambiente deliciosamente macabro.

Connor Oberst, o rapazinho atrás do grupo (eu odeio a palavra "projecto") Bright Eyes, é um palerma que gosta de transformar as mesquinhices da sua vida em melodramas hiper-pretensiosos. A típica canção Bright Eyes é escrita logo após a namorada do autor o ter deixado (provávelmente por passar demasiado tempo ao espelho e não passar tempo suficiente com ela), e é composta por uma letra que fala de como todas as mulheres são dragões enviados por Satanás para corromper o nobre coração do cantor- depois de um minuto ou dois, Oeberst farta-se disso e passa o resto da canção a gemer e a gritar, enquanto ouvimos violinos atrás dele.

Isto é tudo bastante patético, bastante misógino, e não admira que os críticos odeiem portanto uma das bandas mais adoradas pelo público Emo dos E.U.A. Mas eu gosto dos Bright Eyes: acho que levam as suas parvoíces à extremos tão absurdos que acabam por transformar os seus negativos em positivos; não faltam "poetas" na cena musical americana a queixarem-se do sexo feminino, mas nunca veremos os matchbox twenty ou os Counting Crows dar-nos versos tão completamente malucos como este:

"Such pretty words...but life's no story book/love's an excuse to get hurt/and to hurt.../d'ya wanna hurt?/I do! I do!/then hurt meeeeeeeeee!!!"

"Lover I Don't Have To Love" tem violinos, tem gemidos, tem bisexualidade ("I want a girl who's too sad to give a fuck....I want a boy who's so drunk he doesn't talk"), tem tudo o que faz os Bright Eyes tão alucinantes. Glorious delusions of grandeur. Não é ironia, é apenas o mesmo tipo de prazer que recebo quando leio BDs com os vilões do Batman.


 
As tais considerações:

*Conheço a letra toda do "Não Há Estrelas No Céu". Toda a gente conhece. Nem sei se alguém gosta da canção, mas acbamos todos por gostar porque dá para cantarmos todos juntos. De qualquer forma, é uma cantiga idiota. Jovens à sério não falam na "Primavera da vida". Jovens à sério não ouvem conselhos que velhos têm para lhes dar. Isto de querer ser "tio fixe" é um dos maiores problemas da música portuguesa (ver também: "Sub-16" dos GNR, "É A Vida" de Sérgio Godinho)

*Nunca tinha prestado bem atenção antes à letra do "O Prometido É Devido" ! Melhor do que isso, só mesmo Violent Femmes (e vamos todos: "why can't I get/just one fuck?/why can't I get/just one fuck?")

*A letra do "Não Me Mintas" serviria para os Linkin Park. Não, isso não é um elogio.

*Também conheço a letra toda do "Paixão"; ora bem, se consideramos que a população inteira de Portugal sabe a letra toda de "Paixão", teremos que considerar também a possibilidade de que essas letras influenciam subconscientemente as atitudes de todos que vivem no nosso país. Onde quero eu chegar?

"Contigo aprendi uma grande lição/não se ama alguém que não ouve a mesma canção"

Ora bem, olhemos de relance para alguns discos escolhidos à sorte da minha colecção: De La Soul, The Smiths, Sérgio Godinho, Elvis Costello, The Beatles, Roy Orbison, Blur, Television Personalities, Love, Rufus Wainwright, Johnny Cash...mas quem é que tem tempo para isto tudo? Ninguém, obviamente, menos eu, que passo o meu tempo fechado no quarto a ouvir música e passo os meus Domingos a escrever numa coisa que ninguém sabe bem o que é suposto ser e que todos querem fazer de conta que não é um diário online, porque isso seria realmente patético, não, não, não, isso aqui chama se "blog" e desculpem, mas aqueles que se queixam da palavra "bloglogsfera" só o fazem porque se esqueceram do quão estúpido é a palavra "blog", quer dizer, porra, "blog", não conseguiram arranjar nada melhor do que isto?

Mas voltando ao assunto: visto então que nenhuma rapariga em S.Miguel tem a quantidade suficiente de tempo, dinheiro e vontade para ouvir todos os sete volumes de "Atlantic R&B 1947-1974", é claro que qualquer miúda que tente se aproximar de mim (e, tendo em consideração a minha sedutora e viril aparência física, isso de certeza que acontece muito) irá se lembrar subconscientemente dessas malditas letras, e por isso, sem saber bem porquê, sentir-se desencorajada e sem vontade de sequer tentar, deixando-me sozinho com o discman a tocar o terceiro dos Big Star (a versão com os bonus tracks, é obvio, ai é tão giro esta coisa do namedropping não é?) E se eu próprio tomar a inciativa, o resultado é o mesmo: vêem o meu pin dos Specials ou a minha t-shirt dos Smiths e decidem imediatamente rejeitá-me. Em outras palvras, o Rui Veloso é culpado pelo facto de eu não arranjar namorada. Sacana.


 
O Rui Veloso hoje nas Portas Da Cidade fez piadas, conversou com a audiência, bebeu vinho tinto em vez de água e tocou tudo que o público queria ouvir- "Não Há Estrelas No Ceu", "Lado Lunar", "Todo O Tempo Do Mundo", "Paixão" é claro, mas também "Chico Fininho", "Saiu Para A Rua", "Sei De Uma Camponesa", Rio Grande, Cabeças No Ar. Tudo com sorriso permanente, mostrando um simpático sentido de humor e uma vontade genuína de se divertir com o público, mas também um ar um bocadinho convencido, de quem acha (sabe?) que já não tem nada a provar a ninguém. Apesar dos gestos de Hip-Hop no fim do "Postal Dos Correios" (espero que estava a fazer troça de si mesmo, e não do estilo) e de um valente solo de viola eléctrica que me fez esquecer o meu fervor anti-técnicista, não conseguio tirar-me por completo a sensação de estar a ouvir um conjunto de baladas bem elaborados por alguém conceituado, como diria o Sam The Kid, nem me fez esquecer por completo a triste figura da versão do "Paixão" no "Venham Mais Cinco". Mas pelo menos conseguio convencer-me de que o Rui Veloso ainda é um artista que gosta de tocar, que gosta de actuar ao vivo, que gosta da música, e que gosta do seu público. Já é algo.

(Algumas das canções, apesar de já as ter ouvido dez mil milhões de vezes, ainda conseguem fornecer-me novos pensamentos. Mais sobre isso amanhã.)


sábado, junho 14, 2003
 
A quantidade de pessoas que apareceu excedeu de longe as minhas expectativas- já quase que não se arranjava lugares para o pessoal todo...eu tinha organizado a festa com a velha máxima "Se convidares 50, vêm 25" em mente, havia lá eu de saber que desta vez apareciriam (quase) todos?

Boa comida (sendo o restaurante da minha mãe...), boa gente, discussões avivadas sobre a droga (o meu argumento de que os doces também são drogas não se pôde manter em pé por muito tempo, mas mesmo assim consegui concluir a discussão com um triunfal "Mas é que eu sou existencialista!"), a música (defesa de Jorge Palma, Fausto, Sérgio Godinho e Fernando Girão por minha parte; defesa dos Blasted Mechanism pelo lado oposto. Depois meti lá também os Mind Da Gap e os Da Weasel, para não ficar no papel de antiquado) e sobre a igreja católica (também não sei como fomos ali parar.) Pena foi que tenha acabado tão cedo- 1:30, meu Deus! Já estamos quase todos com dezoito anos, e os pais dessa gente não os autorizam a sair para além das 1:30?


sexta-feira, junho 13, 2003
 
E pronto. Foi o último dia de aulas. Agora ainda há exames (olhem para a minha cara de preocupado) e depois....depois, uhm, nada. Acabou. Passei cerca de nove anos ansioso por este momento, mas nos ultimos três tenho descobrido o quanto sou dependente da escola, o quanto a minha vida social depende dela. É uma merda: pôem-nos la dentro quando não queremos ir, fazem com que toda a nossa vida se torne à volta disso, e depois cuspem-nos para fora. Não é que não tenha planos- alías, tenho os muito bem definidos, mas não é isso que está em causa. É mais uma questão de não me sentir preparado, de ter um terror completo da "vida real" em que agora vou ter que me inserir.

E não sou só eu- quase toda a gente com que falo tem pensamentos semelhantes...bem, isso pondo de fora os que já caíram na apatia total e simplesmente recusam-se a pensar sobre o futuro (atitude bastante americana, e a razão de existência do Nu Metal.) Os meus pais e os seus amigos mostram-se incrédulos- nos tempos deles, nem podiam esperar por sair finalmente de casa e entrar no grande mundo. Mudam-se os tempos....

Mas falemos de coisas bem melhores. Organizei uma festa para hoje à noite, com todo o pessoal que consegui encontrar (incluindo gente que já não vejo há anos!) Vai ser fixe. E como numa festa danielística o que não pode faltar é música, passei os últimos dias a trabalhar nestes dois CDRs- os critérios para a selecção foram difíceis...tinha que ser música conhecida pelo pessoal, mas suficientemente séria para não irritar aqueles com mentes menos abertas (o que quer dizer que o meu projecto de repetir trinta vezes num CD o "Asereje" das Las Ketchup foi para o lixo); mesmo assim, ainda inseri uma ou duas cantigas "só para mim" (Clash, Specials.) Ora vejam lá....

THE BLACK NAMELESS:
1-The Strokes:Last Nite
2-Gorillaz:Clint Eastwood
3-GNR:Dunas
4-The Smiths:How Soon Is Now?
5-Bob Marley & The Wailers:Jamming
6-Blur:Song 2
7-Madonna:Beautiful Stranger
8-Silence 4:Borrow
9-Da Weasel:Todagente
10-The Specials:Too Much, Too Young
11-Weird "Al" Yankovich:Angry Young Man Polka
12-De La Soul:Ooh
13-Beck:Loser
14-The Clash:White Man (In Hammersmith Palais)
15-The Cure:Just Like Heaven
16-U2:With Or Without You
17-Marit Bergman:This Year Is Mine

TALVEZ SIM:
1-Bruce Springsteen & The E Street Band:Thunder Road
2-The Rolling Stones:Brown Sugar
3-Jorge Palma:Deixa-Me Rir
4-Kool & The Gang:Jungle Boogie
5-Valete:Os Nossos Tempos
6-Missy Elliot:Work It
7-Run-D.M.C. & Aerosmith:Walk This Way
8-The Libertines:Time For Heroes
9-Blur:Girls & Boys
10-The Divine Comedy:Generation Sex
11-Ms.Dynamite:Dy-Na-Mi-Tee
12-Black Sabbath:Paranoid
13-U2:Even Better Than The Real Thing
14-The Beatles:Paperback Writer
15-The Flaming Lips:Fight Test
16-Blondie:Heart Of Glass
17-Bob Dylan:Knocking On Heaven's Door
18-The Pogues:A Rainy Night In Soho


quinta-feira, junho 12, 2003
 
Pronto, já acabou. Sinto-me estranhamente sujo. Preciso de um duche. Preciso de Leonard Cohen!


 
E então o "Amar Como Jesus Amou", hem? Contra isto o período cristão do Bob Dylan não é nada! Ai Jesus! Tenho que por esta numa das minhas misturas de canções para ouvir às cinco da manhã, rodeado por amigos embriagados. Acho que ficará excelente entre o "What's New, Pussycat?" do Tom Jones e o "30 Seconds Over Tokyo" dos Pere Ubu...


 
Mas não, esperem, "Como O Macaco Gosta De Banana" realmente é uma grande canção. Não só porque a voz do José Cid parece estar completamente inconsciente dos trocadilhos sexuais que anda a cantar (e que o seu dono escreveu!), mas também porque os trocadilhos são tão confusos- então afinal ele é o macaco ou a banana ou a palmeira ou quê?

E o que é que se passa com o solo de flauta tipo Eric Burdon & War no meio do "Depois Da Meia Noite"? Não, não me parece que desperdicei o meu dinheiro...este gajo pode ser foleiro mas chato não é.


 
Diz o booklet que o Cid passou os últimos tempos a cantar poetas como Garcia Lorca, Pablo Neruda, Camões, Fernando Pessoa, Natália Correia, David Mourão Ferreira e Rosalía De Castro. Será que também é com som disco sound? Disso sim, poderia gostar.


 
Hoje comprei a nova antologia do José Cid. É verdade que já tinha tido uma experiência desagradável com esse senhor, por meio de "10.000 Anos Depois Entre Vénus E Marte" (um vómito de Progressive Rock, comprado pela recomendação dada à ele na lista dos 101 melhores álbuns da música popular portuguesa do "Público"), mas enfim, pensava que tinha sido um erro do seu tempo- nada pior do que grupos britânicos e americanos estavam a fazer nessa época. De qualquer forma, pensava que iria gostar do resto da obra dele. Afinal, gosto do seu look de Roy Orbison portuga, gosto do facto de ter escrito uma canção sobre o D.Sebastião em que este não volta, gosto dos títulos das canções que via na capa ("Romântico, Mas Não Tropego"! "Sou Um Rochedo Na Maré Viva"!), gosto da lenda do Quarteto 1111. Quero gostar também da música.

Enfim, estou a ouvir agora, e desculpem-me, mas que merda é esta???? E olhem que eu nem tenho preconceitos contra a música ligeira, mas por Deus, que merda é esta??? Por favor digam-me que isto fica melhor quando ouvimos mais vezes e com mais atenção. Por favor digam-me que não gastei o meu dinheiro....nisto.


quarta-feira, junho 11, 2003
 
Acerca das selecções do "Venham Mais Cinco", hoje na RTP1:

O que era suposto ter sido uma celebração da música portuguesa e um apelo às rádios para que passasem mais da mesma acabou por ser, na verdade, um pedido para que se destrua todas as lojas de discos, editoras discográficas e salas de concerto ayé que não haja a mínima hipótese de se ouvir sequer uma nota cantada em português.

Lá estavam eles todos: Rui Veloso, João Afonso, Luís Represas. Balada após enfadonha balada, nem um sinal de vida por entre o piano e a viola acústica- homens cansados que se arrastam ao palco para morrer. O Vítorino não deu palmas aos outros e depois pôs-se a cantar o "Menina Estás À Janela", mostrando enfáticamente que se estava a cagar para isso tudo. A revolução do Novo Fado é uma revolução apenas ao nível de que agora os intérpretes são mais ou menos jovens, mas o estilo continua inalterável, purista, mais do que visto. Até mesmo a Mariza, que realmente na sua aparência e nas caras agressivas tem algo de revolucionária, nada faz para realmente enriquecer o Fado a nível músical. Para além disso, lá estiveram o João Pedro Pais e outros "novos talentos" para nos darem mundanas canções cheias de caminhos e luas e rios e outros lugares comuns. A Ala Dos Namorados incentivou o público a cantar com eles- o maior gesto de energia num espetáculo que se distinguio pelo seu passo lento, mole, moribundo.

O maior erro do programa inteiro foi iniciá-lo com uma curta colagem sonora de momentos da música portuguesa- por segundos, ouviu-se "Dunas", "Esta Vida De Marinheiro", Heróis Do Mar. Momentos vivos, que podem pertencer ao passado mas cuja energia os torna intemporais. Foi isso que faltou ao "Venham Mais Cinco", algo com creatividade, entusiasmo e (repito) energia comparável ao experimentalismo alegre dos GNR na década dos '80, às folias despretensiosas dos Sitiados no ínicio dos anos '90 ou à locura (ideologicamente indesculpável, artisticamente deliciosa) dos infames Heróis Do Mar. Algo que fizesse os velhos senhores acordar do seu sono do conformismo, que avisasse as novas vozes do Fado que a verdadeira mudança tem que ser mais do que mera cosmética, e que nos livrasse de uma vez por todas do João Pedro Pais e dos seus comparsas. Grupos destes existem, semelhantes aos GNR, Sitiados e Heróis Do Mar precisamente porque são completamente diferentes deles. Mas o problema é que esses por vezes cantam em Inglês (o que quer dizer que não são portugueses) ou usam as turntables e o microfone em vez do piano (o que quer dizer que não são música), e portanto encontram-se no lado errado das trincheiras na batalha para salvar a música portuguesa. E por isso aturamos o Rui Veloso a cantar pela enésima vez sobre a porra do anel, tentando não esquecer que este homem, a dois ou três séculos atrás, era capaz de fazer álbuns tão dinâmicos como o "Ar De Rock"....

Boa noite, Portugal, boa noite.



terça-feira, junho 10, 2003
 
Hoje é dia de Portugal- uma boa ocasião para festejar os tesouros nacionais, tais como os Mind Da Gap, a Inépcia e o nariz do Paulo Portas.


 
Sabem o que está a dar outra vez na RTP1? Ballet Rose, uma série que nem de longe mereceu o desprezo com o qual foi recebida quando estreou; a culpa, sem dúvida, foi da equipa de relações públicas da RTP.

Lembro-me bem desses tempos: estava eu no sétimo ano de escolaridade, e era obrigatório na minha turma assistir todos os Sábados à noite o "Aphrodisia", na SIC. Era uma série erótica francesa, bastante mansa mas mesmo assim merecedora da famosa bola vermelha no canto superior direito do ecrã que capta o interesse de todos os espectadores com menos de dezoito anos de idade. Como série erótica, até que tinha bastante qualidade- se bem que dizê-lo hoje em dia é um lugar comum, não deixa de ser verdade que os franceses são um povo que sabe abordar com gosto a temática sexual, sem o sexismo prevalente nas produções americanas e sem os fetishes exagerados dos japoneses (não me deixem começar a falar do "Hentai", que estaremos aqui todo o dia!) Os enredos eram por vezes pirosos, é certo, mas no fim de tudo o que viamos no "Aphrodisia" era apenas algumas pessoas bonitas a fazerem sexo, de forma elegante e carinhosa. Para "professor" na época da nossa iniciação na vida sexual, até que tinha bastante qualidade, e sem dúvida era muito melhor do que os violentos filmes pornográficos que havia para comprar no hipermercado.

Ora, certo dia a televisão pública decidiu fazer concorrência à este "hot spot" (eh eh, não era suposto ser trocadilho) da SIC e começou a fazer publicidade para "a nova série erótica da RTP, "Ballet Rose"". Entusiasmados com a possibilidade de ver nuas as actrizes que já conheciamos das telenovelas (e que como tais já tinham sido o alvo de mais de uma fantasia masturbacional da nossa parte), não houve um rapaz da minha turma que perdeu a estreia. Imaginem então o nosso desapontamento com aquela séria série sobre a prostituição e a pedófilia no Portugal da era salazarista, onde às vezes aparecia um par de seios, e mesmo nesses momentos sempre acompanhados de uma gigantesca dose de sentimentos de culpa e depressão. Revoltado perante esta injustiça, o público jovem rápidamente abandonou a série- quanto aos espectadores que uma série destas normalmente atinge, não sei se alguma vez descobriram-la, mas os anúncios tilitantes de certeza que não os incentivavam a isso.

Ontem, ao fazer o bom e velho zapping pelos canais televisivos, apanhei por puro acaso um velho episódio. A série tem todos os problemas intrínsecos à televisão portuguesa- os actores simplesmente não foram educados para esse médium, pensam que uma série de televisão é uma peça de teatro. O modo artificial e dramático com o qual proferem os seus diálogos seria talvez excelente para o famoso distanciamento do público inerente às peças de Berthold Brecht; uma série televisiva, pelo contrário, exige casualidade, naturalidade- caracteristicas que os actores portugueses parecem incapazes de alcançar. O que falta às séries portuguesas é a consciência do mundano, a ideia de que a televisão deve representar o dia-a-dia da vida das suas personagens, por mais extraordinárias ou trágicas que essas sejam; no "Ballet Rose", qualquer linha de diálogo é proferida com o tom grave e dramático do monólogo da Matilde em "Felizmente Há Luar". É urgente que, em vez de insistir na "boa televisão portuguesa", os actores ultrapassem a sua ignorância e vejam mais séries do estrangeiro- principalmente coisas mais ou menos ignoradas pela crítica, tal como "Buffy-A Caçadora De Vampiros", que é soberba na sua capacidade de criar diálogos ao mesmo tempo naturais e espirituosos. Mesmo assim, vale a pena ver, por razões de interesse socoilógico se não outras- "Ballet Rose" foi, afinal, uma das poucas ocasiões nas quais se falou abertamente da pedofilia que, naqueles tempos, já todos sabiamos existir mas a qual ninguém mencionava.


segunda-feira, junho 09, 2003
 
E já agora: deu hoje no telejornal uma curta entrevista com a autora de um livro de antropologia sobre "a música rap". Visto que esta, para além de ter uma aparência bastante jovem, disse ter feito pesquisas sobre o assunto, estou estupefacto perante o facto de que, nestas pesquisas, nunca ninguêm lhe disse que o termo correcto é música Hip-Hop. Admito que eu próprio uso muito o termo corrente Rap, mas eu também não me ponho a escrever livros sobre o assunto.


 
Alguêm pode dizer à universidade para ficar quieta? É que os seus anúncios são realmente a coisa mais irritante na televisão portuguesa, o que num médium que inclui o Jorge Gabriel e a Júlia Pinheiro, é um feito considerável.


 
Acho que não entendi bem a mensagem d'"A Cidade E As Serras", não tanto por discordar da sua tese principal (formulando-la de um modo primitivo e redutor: CIDADE MÁ! CAMPO BOM!), mas simplesmente porque não penso nas coisas dessa maneira. O tédio das serras tem tanto poder de destruír um Homem como o tem a opulência esbanjadora das cidades, isso tudo depende muito mais do temperamento do próprio Homem do que dos espaços em si. Aprendi (observando os comportamentos e as opiniões da minha mãe e principalmente do meu pai, sem que esses tivessem tido tenções concretas de me incurtir esta ideologia) que o melhor modo de vida é um sem a necessidade de escolher entre a opção bucólica e a opção urbana, um em que se permanece por uns tempos num espaço e, quando ao fim de alguns anos (e "alguns anos" aqui também pode significar "algumas décadas") nos fartamos dele, vamos para outro lado; nunca questionei esta noção, nunca tive razão para fazê-lo.

Mas também me pergunto se as opções d'"A Cidade E As Serras" são sequer comparáveis às dos nossos tempos. É que alguns dos problemas do Jacinto, tais como as estantes recheadas de uma imensidão de livros nunca lidos e que provávelmente nunca o serão, também os tenho eu, e não me foi preciso viver em Paris para os encontrar- tenho os aqui mesmo no pacato ambiente rural de Água De Pau, por virtude da Amazon, da FNAC e de outros serviços online.

E depois há os problemas do livro em si, o tom pesado da tese ao qual por vezes falta a subtileza necessária para a tornar crédivel, o modo rápido com o qual Jacinto se converte ao amor às serras, fazendo grande parte do livro parecer às vezes confusa e desnecessária, e outras pequenas falhas que Eça de certeza teria corrigido se não tivesse morrido antes de acabar a revisão da obra (entristece-me imensamente pensar nisso, um artista que ainda trabalha no fim da sua vida e depois morre antes de poder concluir as suas obras.) Diz o senhor Carlos Reis na introdução que a obra deve ser interpretada sob um ponto de vista simbólico- mas simbólico de quê, meu deus? A preguiça intelectual agarra-me e não me deixa sequer especular....