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domingo, junho 01, 2003
 
Desapareceu a secção de comentários. Eu não tive nada a ver com isso, ela simplesmente desapareceu- estes sistemas são sempre uma dor de cabeça. Pelo menos não está a lixar o template como o anterior. De qualquer forma, o código do sistema ainda está no template, por isso o mais provável é que os comentários voltem daqui a umas horitas. É so esperar. Acho eu.

Enquanto isso, para tornar este post marginalmente mais interessante, o meu top5 dos melhores concertos que alguma vez assisti:

1- Beck, Coliseu, Lisboa (2000)
2- The Divine Comedy, Hamburgo (2001)
3- Da Weasel, Tenda Dos Bombeiros, Ponta Delgada (2003)
4- The Rolling Stones, Estádio De Alvaláde, Lisboa (1996)
5- Silence 4, Vila Franca (1999?)



sexta-feira, maio 30, 2003
 
Acabei de ler "Eunuco Feminino " de Germaine Greer. É um livro que influenciou profundamente a sociedade em que vivemos- as ideias e os apelos lançados por Greer em 1971 fazem hoje parte essencial do nosso modo de vida. E apesar disto, o livro é revelador: alguns dos temas que aborda estão hoje tão inseridos na nossa sociedade que nunca chegamos a pensar bem neles, outros foram pervertidos da forma mais nefasta. E, principalmente para quem como eu vive num ambiente rural, certas passagens continuam a ser dolorosamente relevantes- como por exemplo o argumento fornecido por Greer de que fornecer acesso ao ensino superior para as mulheres não é o suficiente, pois elas simplesmente se limitarão a transferir a sua atitude passiva aos estudos: chegam sempre muito cedo às aulas, prestam muita atenção ao que o professor diz e estudam a noite toda, mas nunca mostram o mínimo interesse pela matéria em si, apenas aprendem para agradar aos pais e aos professores. Vocês não calculam quantas raparigas eu já conheci ao longo da minha carreira escolar que são assim.

De facto, a tese principal do livro (na qual se baseia também o título) é de que as mulheres são criadas para viverem um papel passivo na sociedade, em todos os aspectos, tanto profissional como social e até sexual. É óbvio que muito mudou desde 1971, mas a verdade é que esta teoria ainda está bem presente na nossa sociedade. Lembro-me de, no sexto ano, ter ouvido um dos meus colegas a tentar gabar-se das suas experiências sexuais (o mais provável é que ele ainda era virgem, mas vocês sabem como são os rapazes naquela idade.) Infelizmente, o pobre coitado lembrou-se de, ao longo do seu discurso fantástico, mencionar que ele "foi fodido", o que foi recebido com muitas gargalhadas pelos restantes ouvintes. "Não porra, mas fui fodido por uma gaja!" retorquio ele em auto-defesa, o que apenas piorou a situação. De facto, ainda hoje assumimos que é o homem que "fode" a mulher, que é o pénis que penetra corajosamente a passiva vagina. Mas se os meus colegas nessa altura tivessem lido o que nos conta Greer sobre as possibilidades sexuais activas da vagina (sem o mínimo pudor ou complexos) de certeza que teriam acabado num instante as gargalhadas.

Ao longo do seu livro, Germaine Greer coloca acima de tudo uma questão: o que é, afinal de contas, o "feminino"? Uma pergunta desconfortante, não só para as mulheres mas também para os homens, visto que pergunta também por extensão o que é o "masculino". Biologicamente, as diferenças entre homens e mulheres não são assim tão consideráveis: para além dos orgãos sexuais, pouco existe a relatar, visto que até mesmo características como a quantidade de cabelos em certas partes do corpo provêm não dos cromossomas que determinam o nosso sexo, mas sim de hormonas. Os ideiais de masculinidade e femininidade são, diz Greer, principalmente invenções do próprio Homem, não partes de uma suposta "ordem natural". No plano psicológico, as coisas tornam-se ainda mais complicadas- todos temos as nossas imagens do que devem ser um homem e uma mulher, mas no que se baseiam estes estandartes, e até quando são sequer justos ou relevantes? "O homem deve ser forte" (forte aqui mais no sentido de integridade do que no sentido físico); e a mulher, deve ser fraca? "A mulher deve ser sensível"...e o homem, deve ser bruto?

Sendo homem, é verdade que comecei a leitura deste livro com um certo nível de desconfiança e talvez até receio. A palavra "feminismo" tem-se tornado um termo sujo, que para os homens simboliza dragões que os querem levar à escravatura, e para as mulheres significa mulheres feias que não arranjam namorado; por mais injusto que estas definições sejam, temos que admitir que em parte são também culpa de certas correntes do próprio movimento feminista que se deixaram estereótipar assim; prova disto é que até mesmo os meus amigos mais cultos e politicamente activos me lançaram olhares confusos quando lhes disse que estava a ler este livro. No entanto, o tom de Greer nada tem da vulgar ideia da "feminazi" (o termo mais idiota do século XXI?); ela pode ser extremamente dura nas suas críticas aos homens (e às mulheres também!), mas o seu tom não transmite vontade de começar (ou continuar) uma guerra dos sexos, pouco tem de agressivo ou intolerante- muito pelo contrário, o livro está escrito num estilo resignado, e ao mesmo tempo constructivo. "Ah bem, isto está tudo uma barafunda" o livro parece querer dizer-nos "mas pronto, mãos ao trabalho!"

Greer é acima de tudo uma mulher renascentista- num momento fala de investigações ciéntificas, noutro de pedagogia; num momento, analisa Freud, noutro analisa as cartas enviadas às revistas de adolescentes. Fala de Shakespeare, Hemingway, John Osbourne, Oscar Wilde ou Virgina Woolfe, para noutro momento falar de James Bond, Bob Dylan, os Troggs e os romances para mulheres. O seu conhecimento parece não ter limites; as frequentes citações (ela parece gostar muito de Blake, por exemplo) dão um tom humano à obra. Apesar de ser um livro teórico, "O Eunuco Feminino " não é uma seca para ler; ao contrário, é uma leitura bastante emplogante.

O termo "leitura obrigatória" é usado muito frequentemente por críticos, principalmente quando cantam louvores ao estilo de um certo autor que adoram (eu faço isto tanto como todos os outros), mas a verdade é que a humanidade em geral pode passar muito bem sem ler um romance qualquer, por mais soberbo que seja o seu estilo e mais bem elaborado o seu enredo; mas um livro como "A Mulher Castrada" merece realmente esta designação- é leitura obrigatória, porque a informação nele contida, tanto à nível teórico como à nivel de simples conselhos prácticos, é essencial para qualquer mulher, qualquer homem, qualquer ser humano. Quem tem conhecimentos de Inglês, pode encomendar aqui. Ao que eu saiba, não existe edição em português- 'bora todos fazer de conta que isto nos surpreende?


quinta-feira, maio 29, 2003
 
Já repararam como de repente todos os insultos proferidos em filmes e séries estrangeiras na SIC Radical têm como tradução nas legendas a palavra "anormal"? Isto é que é subtileza de marketing...


 
Há certas músicas que já ouvímos tantas vezes que começamos a perder a noção daquilo que as faz grandes- começamos a apreciá-las mais por sentido de obrigação e por nostalgia por tempos em que as amávamos do que por realmente gostarmos delas. Quando isso acontece, convém afastarmo-nos por uns tempos, para que eventualmente as possamos ouvir outra vez com entusiasmo, com interesse.

Há anos que já não ouvia a famosa "Wild Thing" dos Troggs; o incentivo para a revisitar veio, estranhamente, dum livro sobre feminismo. É refrescante poder experienciar uma música tão "vista" com novos ouvidos- "Wild Thing", é claro, é hoje considerado um dos grandes hinos do Garage Rock* dos anos '60, uma canção cujas falhas- a estúpidez, o sexismo, a brutez- são também os seus pontos fortes. "Troggs" vem de trogloditas, e é assim que ficaram na história (com ajuda à grande nível das críticas do Lester Bangs, que os contava como um dos seus grupos preferidos), como representantes de um estilo agressivo, selvagem, ideal para libertar frustração adolscente na sociedade moderna.

Mas se ouvirmos bem "Wild Thing", compreenderemos que existe uma realidade mais complexa dentro do frágil balanço entre o cool e o piroso, entre a confiança quase machista e a sensibilidade escondida que faz esta canção. Podemos notar por exemplo que, quando comparado a outros clássicos do estilo como "Psycho" dos Sonics ou "Psychotic Reaction" dos Count Five (já para não falar dos seus discípulos como os White Stripes e os Hives), "Wild Thing" não é muito brutal, falta-lhe o poder de fogo para isto...de facto, a viola de Chris Britton e a bateria de Ronnie Bullis parecem mais do que outra coisa desajeitadas, não do tipo "eu não quero saber de técnica, eu só quero fazer barulho" mas mais do tipo "eu acabei de aprender o meu segundo acorde, e agora estou-me a esforçar para fazer isto bem certinho...". É primitivo, sim, mas não é selvagem- de facto, parece tudo tão básico que até faz transparecer um bocadinho do espírito Skiffle, o género de música que a juventude britânica tocava antes da chegada dos Beatles, com utensílios de cozinha.

E depois há a voz do Reg Presley- por um lado, a letra que ele está a cantar e a forma viscosa com a qual ele a canta são tão foleiras que é impossivel pensarmos que ele se está a tomar a sério, mas por algum milagre esta viscosidade transforma-se em sedução nos seus lábios. É impossível imitarmos o monólogo dos versos ("wild thing, I think I love you....but I wanna knooow fer sure/so c'mon and hold me tight/I love you") sem desatarmos às gargalhadas, mas se nos limitarmos a ouvir o Reg cantá-las, há nelas algo de quente, de extremamente sexual sem o mínimo sinal de embaraço. E se formos a ver bem, até mesmo o machismo da letra esconde uma certa inocência e uma certa insegurança...notem como Reg nunca toma um papel activo, como ele quer mais do que apenas andar na marmelada, como ele quer um sentimento de segurança; nas entrelinhas de "Wild Thing" existe uma imensa sensibilidade que o orgulho macho do grupo não permite assumir por completo. E afinal, quem mais se lembrou de fazer um clássico Garage Rock com um solo de flauta?

* Para quem não sabe, o "Garage Rock" é um estilo que surgio nos anos '60, quando adolscentes americanos começaram a tentar imitar os seus ídolos, grupos como os Beatles, Rolling Stones e Yardbirds. Normalmente, esses grupos não tinham muita aptidão técnica, pelo que as suas gravações ficavam muito mais simples, primitivas e "cruas" do que as dos grupos que tentavam imitar. No Garage Rock, dá se menos importância à competência técnica do que à energia e fúria com a qual o grupo investe as suas músicas; nisto, os grupos de garagem (assim chamados pelos seus espaços de ensaio) pressagiaram a ideologia Punk dos anos '70. Nas canções de Garage Rock, são de realçar a brutalidade dos instrumentos, a locura nos vocalistas e as letras que quase sempre tratam de frustração sexual e adolescente. Embora que a maioria desses grupos tenha existido nos E.U.A., existem grandes singles de Garage Rock um pouco por todo o mundo; o talento limitado dos seus exponentes fez com que poucos deles tivessem mais do que um ou dois êxitos- coube portanto a compiladores e coleccionadores nas décadas seguintes prevenir que esse estilo caísse em total esquecimento. Hoje em dia, é fácil encontrar boas compilações do estilo (a caixa Nuggets é um bom ponto de partida.) O Garage Rock teve um ressurgimento recente por meio de grupos como os The Hives, The Kills e The White Stripes.


quarta-feira, maio 28, 2003
 
Dados retirados hoje do meu manual de psicologia:

Q.I. do John F. Kennedy = 119
Q.I. da Madonna = 140
Q.I. do Reggie Jackson = 160

Não devia fazer sentido, mas faz.

(O meu é de 126)



terça-feira, maio 27, 2003
 
Não é a primeira vez que a Coluna Infame diz algo que me irrita, mas desta vez passou dos limites. "Revejam o Magnolia"?? Mas o que é que nós fizemos para merecer tão cruel destino?


segunda-feira, maio 26, 2003
 


O novo álbum do Sérgio Godinho. É um disco de duetos.

Quanto às canções, são uma selecção apropriada da obra de um dos maiores cantautores lusitanos- começamos com um ambiente extremamente introvertido ("Pode Alguém Ser Quem Não É?", "Lisboa Que Amanhece", "Mudemos De Assunto"), para a partir daí começar a pintar um retrato mais ou menos completo da dimensão artística de Godinho, passando tanto pelas suas cantigas de intervenção política ("O Galo É O Dono Dos Ovos", "Fotos De Fogo", "Que Força É Essa?") como pelo sua faceta mais pessoal ("Isto Anda Tudo Ligado", "Antes O Poço Da Morte"), bem como as velhas tendências populistas ("Coro Das Velhas", "Barnabé"), acabando com o tom simultaneamente lacónico ("separam-nos cordas/separam-nos credos") e harmonioso ("isto é como tudo/não há de ser nada") de "Dancemos No Mundo".

Também os parceiros de dueto pouco nos dão para críticar- quem não gosta das suas performances aqui, é porque simplesmente não gosta deles como artistas em geral. Quem pensa que o David Fonseca é um fracote irritante com manias de melancolismo exagerado (eu não), que a Teresa Salgueiro tem afundado a sua voz em maneirismos sisudos (eu sim) e que o Rui Veloso é um chato que já anda a desperdiçar o seu talento há decadas (eu ainda não decidi) de certeza que não mudará de opinião depois de ouvir "O Irmão Do Meio", mas o que é certo é que todos os artistas aqui envolvidos conseguem integrar de maneira profissional e dinâmica as canções do Sérgio nos seus respectivos universos musicais- uma pessoa que nunca tenha ouvido antes estas cantigas poderia sem problemas pensar que "Antes O Poço Da Morte" é mais um hino dos Xutos & Pontapés, que "Mudemos De Assunto" é a mais recente composição de Jorge Palma e que a "Balada Da Rita" é o regresso dos Silence 4 ao idioma português. Como um bom anfitrião, o próprio Sérgio mantem-se discreto e súbtil, e como um bom amigo, consegue estabelecer um elo emotivo com todos os seus convidados- é só ouvir a maneira sonolenta com que Caeatano Veloso e Sérgio Godinho ambos se recusam a pronúnciar o "e" final da palavra "amanhece" num lindo "Lisboa Que Amanhece".

Nas primeiras vezes em que se ouve o disco, o elo mais fraco parecem ser os arranjos e produção pronúnciadamente electrónicos de Nuno Rafael. É certo que o Sérgio Godinho sempre se prezou em avançar com os tempos, mas o modernismo forçado cheio de truques à Nigel Goldrich (aquele que produzio o "Kid A" dos Radiohead e depois estragou o Beck e os Travis) tem algo de barato e irritante, principalmente quando o contrastamos com as canções no disco onde a produção foi deixada ao cargo dos parceiros de dueto e seus comparsas, que têm sem excepção um feeling bastante natural e à vontade. No entanto, esses defeitos tornam-se menos incomodativos depois de audições repetidas, e com o tempo notamos até traços de um psicadélismo lindíssimo.

O facto de ser apenas um disco de duetos com canções velhas obriga a que "O Irmão Do Meio" seja apenas uma nota de rodapé no grande ouevre de Godinho, é claro. E no entanto, uma das caracteristicas que define os verdadeiros génios, desde Eça De Queiroz até Bob Dylan, é que até mesmo os seus esforços menos pertinentes conseguem ser mais fascinantes do que deviam ser, conseguem ir além de si próprios. É este também o caso de "O Irmão Do Meio", que no seu todo consegue ser um microcosmo de Portugal em si, não só no que diz respeito às ligações com a África e o Brasil, mas também no plano generacional.

É preciso que pensemos bem neste facto: "O Irmão Do Meio" é um álbum em que Sérgio Godinho canta duetos com artistas que vão do Carlos Do Carmo até aos Da Weasel. Se vamos transferir isto para, digamos, o mercado Americano, o equivalente seria o Bob Dylan fazer um disco com participações do Tony Bennent e do 50 Cent. Será sequer preciso notar que a produção deste disco hipotético seria completamente impossível? Nos E.U.A., e muitos noutros países, as fronteiras das gerações são mais segregadoras do que em Portugal. Ao ver a variedade presente n'"O Irmão Do Meio", tanto a nível de genéros musicais como a nível de idade, a maioria dos críticos nacionais certamente irá realçar em tom de elogio os grandes horizontes do Sérgio Godinho, mas a mim o que me surpeeende mais não é o facto de ele ter convidado esta gente toda, mas que todos aceitaram. O facto de que o fizeram mostra que em Portugal existe uma atitude diferente entre as gerações musicais do que em outros lugares, uma em que os jovens podem mostrar em público a sua admiração pelos veteranos sem serem acusados de tradicionalismo, e em que os velhos têm grande facilidade em aprender a apreciar os feitos dos mais novos.

Haverá agora de certeza quem diga que esta atitude é contra certos códigos rebeldes rockistas que certas facções consideram sagrados, que fomenta o conformismo, a falta de faísca na cena musical e uma eventual sociedade do elogio mútou. E podem até ter alguma razão com estes argumentos, mas a música presente em "O Irmão Do Meio" mostra que esta atitude também pode levar a discos vibrantes, dinâmicos, vivos, e por isso, cá vos deixo com os meus dois momentos favoritos do álbum: "Fotos De Fogo", em que Sérgio, Carlos Do Carmo e Camané se unem numa descrição amarga das guerras coloniais, um episódio da história portuguesa que (apesar de alguns esforços recentes) continua a estar absorvido num envergonhado e destructivo silêncio, e "Isto Anda Tudo Ligado", em que Sérgio se junta aos sons Hip-Hop de Gabriel O Pensador e dos Da Weasel- no fim da canção, por entre os ad libs usuais dos rappers, o Sérgio solta um entusiasmado "por onde é que se anda, ehm, por onde é que se anda?" Isto pode parecer ridículo, mas isto é Portugal, e quanto a mim, eu gosto.


 
"Isto vai ser o filme da minha vida" disse um dos amigos com os quais eu fui assistir o "Matrix 2:Reloaded "tal como o "Star Wars foi para o pessoal dos anos '80". E sabem, ele provávelmente até tem razão- a triologia "Matrix" provávelmente irá simbolizar a minha geração tanto como o "Star Wars" simbolizou a geração do fim dos anos '70/início dos anos '80.

E isto é um facto deveras deprimente- o facto de uma data de efeitos especiais, um elevado nível de violência e um balde de filosofia barata (sem bolachas) serem o suficiente para entusiasmar os meus amigos à ponto disso. Será preciso sequer mencionar que existe outra triologia que é dez mil vezes mais merecedora deste estatuto? Pensem por um momento no "Senhor Dos Anéis", um conjunto de filmes que, até agora, conseguio nos fornecer beleza, nobreza, emoção, coração, um leque de personagens tridimensionais e momentos de humor do mais alto nível, sem por isso deixar de lado os efeitos especiais e as cenas de luta, e verão o quão cinzento, feio e estúpido o "The Matrix" realmente é. Mas também o "The Matrix" não é baseado em alguns dos livros mais bonitos do século XX, e por isso voltemos a uma comparação mais justa- a triologia original do "Star Wars", que também teve os seus defeitos no que diz respeito ao uso de "filosofia" ("use the force"? Oh, do shut up!), mas que mesmo assim é superior ao "The Matrix" em quase todos os aspectos. Os efeitos especiais desses filmes são agora velhos (mesmo com os trabalhos de retoque posteriormente feitos por George Lucas), mas mesmo assim impressionam muito mais do que os efeitos topo da gama dos filmes "Matrix", por virtude de terem sido originais, creativos, enquanto o "The Matrix" se limita a reciclar ideas velhas- a estética cyberpunk, os homens engravatados do "Men In Black", o velho truque do homem múltiplo; nada disto chega aos calcanhares da banda da Mos Eisley Cantina, quanto mais ao Chewbacca. E embora que os actores utilizados na triologia original da Guerra Das Estrelas não tenham sido os melhores, o argumento teve sucesso em fazê-los parecer humanos, simpáticos, falíveis, heróicos. O trio Neo (Keanu Reeves), Trinity (Carrie-Anne Moss) e Morpheus (Laurence Fishburne) , pelo contrário, destacam-se apenas pela sua arrogância- de resto, não têm o mínimo de personalidade. Uma festa com Luke Skywalker, Han Solo, Leia, Chewbacca e Yoda seria sem dúvida espectacular- Neo, Trinity e Morpheus provávelmente se limitariam a ficar de olho na porta com os seus estúpidos óculos de sol. A personagem mais tridimensional do filme inteiro é o Link (Harold Perrineau Jr.), que serve de suporte cómico- isto deve dizer-vos algo sobre o quão defeitouso este filme é ao nível da caracterização.

Tendo dito tudo isto, é verdade que "Matrix 2:Reloaded" é pelo menos melhor do que o primeiro. Para começar, desta vez não houve chancina de inocentes por parte de Neo & companhia (um dos aspectos mais ideologicamente desprezíveis do primeiro filme- agora é correcto matar-se pessoas por terem sido manipuladas?), Hugo Weaving faz uma divertida imitação de Jack Nicholson no papel do maléfico Agent Smith; Anthony Zerbe e Lambert Wilson encarnam esteréotipos, mas esteréotipos simpáticos. Alguns dos efeitos especiais mais tradicionais (Neo a voar, o ataque dos homens múltiplos) conseguem impressionar a nível estético. Existe até uma tentativa de dar mais qualidade ao aspecto filosófico do filme, levantando a possibilidade de haver dentro do sistema forças que se opõem a ele, e apresentando um subtexto religioso pouco súbtil com refrências veladas ao teorema de Pascal, embora que, pelo fim do filme, já se tenha voltado à enfadonha ideologia de "O mundo inteiro é uma mentira e não podes confiar em ninguém!!! OH NÃO OH NÃO OH NÃO!!!!"

Mas desculpem, não é o suficiente. É preciso mais do que isto para me fazer aturar o imbecil do Keanu Reeves por mais de duas horas. Se estou fora da minha geração, não tenho problemas com isso- não seria a primeira vez. De qualquer modo, o resto de vocês pode ficar a babar pelo "Matrix", eu cá fico no meu canto com os meus hobbits e wookies e caçadoras de vampiros, onde ninguém usa óculos de sol e existem palavras de amor mais convincentes do que as banalidades ditas por Trinity nas cenas de sexo com o Neo.

(Não tenho certeza, porque saí logo quando o filme acabou, mas acho que a música do fim foi dos Rage Against The Machine que, se se lembram bem, também ja forneceram uma canção para a banda sonora do "Godzilla". Aposto que Marx estaria orgulhoso.)


 
NOTA PARA A JUVENTUDE AÇORIANA:Kurt Cobain está morto- aceitem este facto e continuem com a vossa vida. Parem de transformar o Eminem num símbolo da nossa geração- ele é um MC talentoso, mas o nível de adulação que vocês lhe fornecem é ridículo. A forma como hinos do disfuncionalismo como "Smells Like Teen Spirit" e "Lose Yourself" são transformados em material de discoteca é, para dizer o menos, perverso. Ah, e já que vamos nisto: canções que rimam "paixão" com "tesão" não deviam ser consideradas engraçadas ou chocantes por qualquer pessoa acima dos noveanos, e POR FAVOR parem de tocar música Pimba para darem numa de irónicos, porque qualquer pessoa vê que os sorrisos emplastrados nas vossas caras nada têm de irónico- se realmente gostam desse género de música, ao menos tenham a decência de admitir-lo. E mais uma coisa: tenho o maior respeito pelos Xutos & Pontapés, mas a aquela canção sobre a porra da casinha é o single mais estúpido da história da música popular portuguesa.

Sim, sim, já sei, ninguém gosta de um resmungão quando se quer curtir. Mas olhem que eu até teria aceite estas merdas todas, o Pimba e o Techno e até a porra dos Rammstein ("Ah, és alemão? Curtes Rammstein?" NÃO, NÃO CURTO, PAREM DE PERGUNTAR!!), se pelo menos tivesse tido contacto com alguns membros do sexo feminino para me facilitar o esquecimento das minhas tendências anti-sociais e me ajudar a perder-me um bocadinho no hedonismo populista ("hedonismo populista", gostam? Acabei de inventar!) Não é uma questão de potencial namoro, nem mesmo de flirt, mas quando vou às discotecas, gosto de ter miúdas no meu grupo. As mulheres em geral são mais elegantes a dançar, e incentivam mais que os outros dancem- improvisam até aquelas lindas danças de grupo, para quem não tem par. Para além disso, são mais interessantes a conversar, e mesmo quando a música está alta demais para isso e não há vontade de dançar, só olhar na cara de um membro do sexo oposto é mais agradável do que membros do próprio sexo- descontrai um pouco, e remove logo aquela aura de falhado que paira sobre todos os não-dançantes solitários.

No entanto, do meu leque considerável de amigas (e sim, digo isto com algum orgulho- fomentar amizades com o sexo oposto não é fácil, principalmente não num ambiente rural como o em que eu vivo), algumas de momento estão em férias, outras não gostam de sair à noite, ainda outras têm namorado e portanto compreensivelmente preferem usar o tempo de festas para passar algum tempo com este do que estar a aturar amigos pachorrentos...resultado final, depois de ter entrado na discoteca (se é que aquilo se pode chamar discoteca- é um espaçozinho ao ar livre, sem restrições de idade nem obrigação de pedir nada, aberto apenas nas festas), só tive contacto com membros do sexo feminino duas vezes: uma vez quando uma conhecida me tocou no ombro, disse olá e depois desapareceu para o resto da noite, e na segunda vez quando eu, em desespero total, telefonei para uma amiga e perguntei-lhe se ela tinha planos de ir lá (resposta: não, ou bem, "talvez", o que é o mesmo que não.) Portanto esta "noitada" (ha ha ha, "noitada"- ainda são 1:49!) foi preenchida pela actividade sagrada de Ficar Especado Com Cara De Parvo- tinha um amigo a acompanhar-me é certo, mas a música estava alta demais para conversas e, embora que tentassemos de tempo em tempo um pogo ou um bocadinho de guitarra de ar, nenhum de nós é dançarino bom o suficiente para criar entusiasmo no outro. Em vez disso, ficàmos de pé por cerca de quatro horas, sem dizer quase nada. Divertido.

Fim perfeito para uma noite perfeita: O taxista à caminho de casa perguntou-me se eu era natural de cá. Eu respondi que não, mas que já cá vivia há treze anos. "Mas então não devia ter uma pronúncia melhor?"

"Zerrrto" respondi eu "maz talvêz um dia mim vai poderr falarr bom porrrtuguêz parra agrradarr à falhadoz como vozê"

Não, não disse isso.

Mas devia ter dito.