Filosofia & Bolachas



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domingo, maio 11, 2003
 
Ás vezes penso que os meus pais deviam ter emigrado para a Índia. Ou nascido em Venezuela. Ou qualquer coisa assim. Seja como for, a combinação dos meus genes Alemães e da minha educação Portuguesa resulta frequentemente em situações problemáticas, como também foi o caso do concerto dos Da Weasel, na noite passada na Tenda Dos Bombeiros. Ora vejam lá a combinação fatal das minhas várias identidades nacionais...

Identidade Alemã: "Como é? O concerto começa às 9:30? Ah, então tenho que estar lá às nove horas para comprar o bilhete. Sim, até nove horas já é tarde demais, já devem de estar esgotados! Pressa, pressa, pressa, organização, organização, organização!"

Identidade Portuguesa: "O quê? Combinar ir com alguém? Mas para quê? Isso depois cai tudo no seu lugar, não há razão para estar aqui com grandes organizações...vai-se até lá e depois vê-se logo gente amiga, a malta toda já deve estar lá, para quê preocupar-se agora com telefonemas e compromissos e não sei mais quê..."

Resultado Final: Lá estou eu ao pé da tenda às nove horas, com o bilhete na mão (que provávelmente ainda teria tido possibilidade de comprar cinco minutos antes de começar o espectáculo), sem ninguém conhecido à vista, fazendo telefonemas mais e mais patéticos para todos os meus amigos a ver se alguém, qualquer pessoa talvez está também lá- quanto ao concerto, só iria começar às 10:30/11:00 (acabou por ser 11:20.) Lindo.

Mas valeu a pena. Confesso que estava um bocadinho céptico (a nova direcção mais Rock do "Podes Fugir Mas Não Podes Esconder-Te" sempre me pareceu um tanto forçada, para não dizer oportunista), mas ao vivo, os Da Weasel são magníficos. O concerto foi uma verdadeira definição do que significa sentido de espectáculo; o empenhamento total evoca até aqueles velhos clips de concerto do James Brown, a lançar-se no "Sex Machine" ou no "Make It Funky" coberto de suor. Mas atenção: Hip-Hop puro e duro, não é não; puristas do Rap provavelmente teriam ficado profundamente chocados com a mistura de Hip-Hop, Rock à Rage Against The Machine (um dos guitaristas até se veste como o Tom Morello!) e Reggae (muito Reggae!) que nos foi aqui servida. Mas que se fodem os puristas, pá! Quanto a mim, despi todo o meu cinismo e alinhei em tudo, até mesmo no karaoke do "In Da Club" do 50 Cent. Abanei violentemente a cabeça nos momentos Rock, fiz um bocadinho de air-turntableism nos momentos Hip-Hop, e fiz a minha célebre dança à rude boy nos momentos Reggae, enquanto o resto do público continuava no seu monótono pogo.

Não falo das canções, porque este concerto não foi sobre canções, mas sim sobre música. Foi sobre a alegria contagiosa de um bom flow, foi sobre os estalos violentos de uma viola Rock, foi sobre o ritmo divino de uma canção Reggae (fiquei um bocadinho triste por não ter trazido ganja, mas não se pode ter tudo.) Foi sobre o suor que emanava do grupo, do público e do tecto (!) Foi, enfim, o tipo de experiência que é tão visceral e exuberante que é impossível tentar capturá-la em escrita, por isso vou parar de tentar.

(Nota #1- O símbolo dos Da Weasel- duas caras de roedor vermelhas num fundo preto- tem mais de rato do que de doninha, e a escolha de cores fá-lo parecer o símbolo de um movimento comunista/anarquista- A Frente De Libertação Marxista-Rodeora, ou qualquer coisa do género.)

(Nota #2- Fui para o concerto com uma t-shirt do Morrisey; nem foi de propósito, apenas notei quando já tinha saido de casa. Mesmo assim, acho que isto foi um evento histórico- devo ter sido o primeiro Homem a assistir à um concerto de Hip-Hop com uma t-shirt do líder dos Smiths no corpo. Se em S.Miguel alguém soubesse quem ele é- e se alguém soubesse algo sobre Hip-Hop, já que estamos nisso- acho que teria levado uma grande carga de porrada.)



sexta-feira, maio 09, 2003
 
E agora, um bocadinho de poesia (mas lembrem-se, eu não escrevo poesia! Isto é uma excepçãozinha...)

Hoje, vi-te duas vezes
Mas tu não me viste nenhuma

Pensei muito em ti
Tu pensaste em Marx e/ou pantufas

(porquê pensaste em pantufas?
sei lá eu
és uma míuda estranha)


 
Debate aceso nofórum de blogs- parece que alguns dos membros não gostam de blog brasileiros, por não entenderem nada do que lá se diz (ou qualquer coisa do género.) Chegaram depois outros membros a defender o intercâmbio cultural e a fraternidade dos blogs de língua portuguêsa (causas mui nobres, está claro!)

Quanto a mim, nunca tive curiosidade de explorar a bloglogsfera do Brasil por vários motivos. O primeiro desde já é que o Filosofia & Bolachas nasceu principalmente para fortalecer a minha ligação ao país onde vivo- agora, com dezoito anos, prestes a sair da escola e cada vez mais decidido a passar, se não a minha vida toda, pelo menos o meu futuro próximo em terras lusitanas, nunca paro de me censurar por, após treze anos de ter vivivo aqui, conhecer tão pouco da cultura portuguêsa. Como tal, a minha prioridade foi explorar os blogs conterrâneos. E depois, havia motivos mais egoístas- é extremamente fácil tornarmo-nos notáveis em meios tão pequenos como a bloglogsfera portuguêsa, desde que fácamos algum esforço. Concentrando os meus esforços na cena nacional- em oposição à vasta bloglosfera do Brasil- seria mais fácil encontrar leitores, linkadores e afins (se bem que, esteja isto bem entendido, eu só leio e linko quem gosto de ler, não há aqui troca de favores!) E depois há a simples preguiça- já para manter o passo com a cena nacional é difícil, quanto mais estender os meus esforços a outro continente!

Mas pronto, às vezes é preciso fazer um esforço, e realmente os argumentos apresentados no fórum foram bastante válidos; com uma lingua- e pelo menos um bocadinho de cultura- a unir-nos, é deveras vergonhoso nunca ter tido a iniciativa para explorar um bocadinho os sites dos nossos irmãos Sul-Americanos (e já agora, porquê é que não existe um bom termo afectivo para os brasileiros, tipo o nuestros hermanos que demos aos espanhóis? Tsk tsk...) Armado cum uma lista de blogs recomendados por membros do fórum, comecei as minhas viagens e enfim, parece que a minha sidebar de links vai ficar ainda mais cheia. Ora temos....

Cora traz-nos memórias tocantes dos dias da infância da internet, uma lista de trocadilhos deliciosamente foleiros ("O que um tijolo falou pro outro?
Há um ciumento entre nós." Ha ha ha, mal posso esperar irritar os meus amigos com esta!), e material mais sério sobre a violência no Rio e uma viagem à Argentina. A não perder.

O Interney assustou-me, não só com a notícia de que Bush & Blair foram nomeados para uma candidatura ao prémio Nóbel da paz (bem, se até mesmo o Bono é tomado em consideração...), mas também com a estátistica de que mais de 300 mil brasileiros já têm blog.

Também um bocadinho assustador é o ensaio que o Dedo Do Meio traz sobre sex, drugs e rock & roll (eu sempre preferi masturbação, batatas fritas e Serge Gainsbourg) Este gajo sabe mesmo escrever, e quando eu digo isto de um escritor de música nunca falo à toa, mesmo que rararemente chegue às mesmas conclusões que eu.

O Eu Adoro/Eu Detesto tem um design demasiado colorido para o meu sobrio temperamento Germânico, e alguns desmazelamentos factuais ("Se Pessoa teve Ricardo Reis...", pois teve, mas e os outros? O Caeiro, o Barão de Teles, e o Álvaro De Campos, que é o mais fixe deles todos, porque queria ser um rôbo, o que é compreensivel, os robôs são extremamente fixes?), mas vence pelo entusiasmo e pela originalidade.

E já que falamos de Pessoa, parece que o gajo é bastante bem visto lá no Brasil- Pedaços De Pessoa e blogandopessoa prestam-lhe homenagem, cada qual à sua maneira.


quarta-feira, maio 07, 2003
 
O Jarvis Cocker dos Pulp é o letrista mais cruel à face da terra, batendo até o Morrisey dos Smiths. Querem provas?


Razzmatazz
Dos Pulp/Escrito por Jarvis Cocker
(traduzido por Daniel S. Reifferscheid)

("razzmatazz" significa comportamentos exuberantes, extrovertidos, festivos; não quis traduzir porque não encontro de momento uma palavra mesmo bem adequada e sinto-me um bocadinho preguiçoso.)

O problema com o teu irmão
É que ele está sempre a dormir com a tua mãe
E eu sei que a tua irmã
Esqueceu-se outra vez do período
Estou a falar depressa demais?
Ou estas a fazer-te de tola?
Se quiseres, escrevo tudo num papel
Assim como assim, porque havias de te ralar com isso,
Não eras tu aquela com o razzmatazz
E as noitadas?

Oh!
Sabias e perdeste, não é querida?
Estava a mentir quando te pedi para ficares...

E agora ninguém vai querer saber
Se não lhes telefonares quando dissseste que ias
E ele não virá para a tua casa esta noite
Para tentar seduzir-te
E todas essas coisinhas estúpidas...
Já não funcionam.
Não, não funcionam.

Começaste a engordar
Três semanas depois de eu ter-te deixado
E agora tás com um rapaz que parece um mau comediante
Oh, vais sair ou vais ficar em casa
A comer caixotes de leite?
Vê televisão sozinha...
Mas não és tu aquela
Com o razzmatazz
E as noitadas?

Oh, e o teu pai quer ajudar-te, não é querida?
Mas a tua mãe quer por-te numa instituição

Bem, eu vi-te no hospital
À espera de um teste
Tentavas dar uma aparência de nobreza
Mas a tua cara estava um desastre
E agora vais à uma festa
E sais sozinha
Desculpa, mas não foste tu aquela que disse
Que as coisas vão melhor com um bocadinho de razzmatazz?

E agora ninguém vai querer saber
Se não lhes telefonares quando dissseste que ias
E ele não virá para a tua casa esta noite
Para tentar seduzir-te
E agora são dez e meia da noite
E desejas a morte
Porque todas aquelas coisinihas estúpidas
Já não funcionam
Não, não funcionam.







 
um fórum sobre weblogs. Por enquanto é uma comunidade pequena, mas incentivo todos os bloggers a contribuirem, porque o mais interessante na cena nacional de blogs é a disparidade de assuntos e personalidades. Em outras palavras, quero ver os ingénous a conviver com os cínicos, os analístas políticos com os teens que só usam o blog para mostrar imagens do seu animal de estimação, quero o caos total. Alinham?


 
"I don't want to be a unique snowflake. I want to be a really cool, vicious, motherfucking polar bear. Plus: I'd get to stay white. Minus: Paws are cool. Wait, there are no minuses. Polar bear mania."- palavras sábias da Sheera


terça-feira, maio 06, 2003
 
Ah, e para quem ficou com vontade de conhecer mais o J.M.B....



"Mudam-Se Os Tempos, Mudam-Se As Vontades" é um dos melhores discos de sempre da Pop Portuguesa, e na minha opinião é também igualável a qualquer disco lançado nos E.U.A. ou na Inglaterra no ano em que foi editado (tendo em consideração que este ano foi 1971, o ano do "Who's Next" dos The Who, do "Blue" da Joni Mitchell e do "Sticky Fingers" dos Rolling Stones, isto não é dizer pouco!) Na altura, foi uma revolução de duas formas: por um lado, José Mário Branco foi um dos primeiros cantores de intervenção que à retórica política aliava a criatividade artística. Num meio tão puritano como o dos baladeiros revolucionários, onde há sempre um empenhamento radical em pôr o foco na mensagem, sendo a música apenas um meio para atingir o fim, os artistas frequentemente esquecem-se (ou até recusam-se) a fazer boas melodias ou arranjos creativos, porque isto pertubaria a "pureza" da música, desviaria a atenção da mensagem política a favor do escapismo melódico. O "Mudam-Se Os Tempos, Mudam-Se As Vontades" acabou com essa noção idiótica, por meio de influéncias que passam do Pop ao Jazz à música chamada "erudita" (eu odeio esse termo; então o James Brown não é erudito??) e arranjos por vezes deliciosamente melódicos, por vezes experimentais e constrangedores. Note-se que o José Mário acima de tudo sempre teve talento, incluíndo neste disco manifestos que não saem do ouvido ("Mudam-Se Os Tempos, Mudam-Se As Vontades", "Casa Comigo Marta"), baladas de beleza triste ("Mariazinha", "Queixa Das Almas Jovens Censuradas") e momentos de terror que nos perseguem pelo resto do dia ("Perfilados De Medo", "Nevoeiro".)

Por outro lado, existe o contexto político: "Mudam-Se Os Tempos, Mudam-Se As Vontades" é talvez o disco que melhor captura a atmosfera de repressão e terror dos tempos da ditadura em Portugal. É certo que quando foi editado, o governo já começava a ceder um pouco aos defensores da liberdade de expressão (de que outro modo se explicaria a não censura de canções tão subversivas como "Nevoeiro" ou "Chalatão"?), mas isto não impede que este disco- a começar pela própria capa- transmita todo o medo e toda a fúria das almas oprimidas por um governo totalitário e fascista. Canções como o "Perfilados De Medo" vencem por irem além da política para mostrar as emoções viscerais de um povo desesperado e revoltado; "Nevoeiro" é o cinismo total- o cantor começa por dizer que vai ver a barca onde se encontra o cadáver de D.Sebastião, simbolizando obviamente o assasinato de todos os ideias Portugueses pelas mãos do Salazarismo; mas no fim da canção, quando lhe perguntam porquê vai com tanta pressa, ele diz que quer ficar "bem certeiro de que é morto e enterrado", ou seja, a corrupção desses ideias por parte do regime é tão completa e irreversivel que o próprio cantor quer que desapareçam de uma vez por todas; esta ambiguidade faz com que "Nevoeiro" seja uma das melhores canções que José Mário Branco alguma vez compôs.

Noutros momentos, assiste-se a uma dor mais pessoal- a do próprio artista, e a de centenas de seus compatriotas, refugiados na França para escapar ao terror do regime e à guerra colónial. O primeiro som que ouvimos no disco é o da partida de um comboio de Austerlitz, uma abertura melancólica para um disco que, apesar do optimsmo da canção titular e das contribuições mais populistas de um jovem Sérgio Godinho, é acima de tudo sinistro, deprimente, constrangedor. Mas quando o sofrimento emana de um artista com as habilidades creativas (e a voz, oh, aquela voz!) do José Mário Branco, a dor que se sente é infinitamente atraente.



"Mudam-Se Os Tempos, Mudam-Se As Vontades" foi a ilustração do problema; "Margem De Certa Maneira" é a sugestão das eventuais soluções. Como tal, é mais alegre, mais optimista, mas ao mesmo tempo também um bocadinho mais didático, um bocadinho menos fascinante. A influéncia da chanson Francesa leva a momentos um bocadinho exgerados (a canção do título), e as contribuições do Sérgio Godinho (que antes eram magníficas estórias populares as quais recebiam mensagem política quase acidentalmente) aqui são um bocadinho mais conscientemente intervencionistas. Mas é impossivel negar a qualidade do experimentalismo terrorista do "Engrenagem", do minimalismo pensativo do "A Morte Nunca Existiu" ou da linda narrativa feminista do "Aqui Dentro De Casa". Compare-se a obra do José Mário Branco com o que faziam na mesma altura os cantores intervencionistas na Alemanha ou na Suécia, ou com a cena Folk Americana no ínico da década dos '60- nenhum desses artistas de países infinitamente mais desenvolvidos pode afirmar ter tido uma dimensão estlistica tão variada, e poucos podem afirmar ter feito discos comparaveis ao "Margem De Certa Maneira".



segunda-feira, maio 05, 2003
 
Heroís como o Daredevil e o Spider-Man (e até Batman, cuja carreira cinematográfica foi feita de oportunidades perdidas) funcionam bem no grande ecrã- o facto de se movimentarem nas sombras, de serem sempre um bocadinho clandestinos, dá o beneficio de se poder trabalhar muito com as sombras, com sugestões subtís em vez de pompa e circunstância, desviando assim a atenção do facto de que a maioria dos disfarçes de super heroí, nobres e elegantes em desenho, parecem simplesmente patetas quando transpostos para a realidade. E há mais factores: tanto o Demolidor como Homem-Aranha trabalham a solo, num ambiente urbano, lutando normalmente contra vilões de segunda categoria ou então redes mafiosas de algum tipo. Tudo isto contribuí para uma boa adaptação cinematográfica: a escala menos épica das suas aventuras permite que haja tempo para desenvolver os personagens, criar um enredo claro e estimulante, aumentar a tensão até ao conflicto final e proporcionar uns momentos de humor para não deixar que as coisas fiquem demasiado escuras.

Nada disto se aplica aos X-Men. Os X-Men practicamente só existem em sagas gigantescas de dezenas de números- ler um número é como ler uma página da Bíblia, ou uma estrofe dos Lusíadas. Por ser uma equipa de heroís, as ameaças têm obrigatóriamente de ser sempre devastadoras, horríficas, muitas vezes de proporções cósmicas. Em vez de haver um heroí e uma série de personagens secundárias, existe um leque incrível de dezenas de personagens principais, todas elas bem desenvolvidas e multidimensionais, algumas com uma história que remonta até aos anos '60. A humanidade está lá, mas não existe uma "vida normal" como a que Peter Parker ou Matt Murdock têm; a humanidade dos X-Men vai-se descobrindo aos poucos, no modo como festejam as suas vitórias e aceitam (ou não) as suas derrotas, no modo como riem, choram, se zangam, se arrependem. E também o subtexto político e filosófico inerente à banda desenhada (o ódio aos mutantes como metáfora para o racismo, a homófobia, a intolerância em geral; os poderes dos X-Men como símbolo da energia nuclear, da vida moderna em sí) tem proporções muito maiores do que as crises existênciais de um Demolidor ou de um Homem-Aranha.

Enfim, tudo isto simplesmente não cabe num filme, principalmente num que é suposto ser também acessivel aos grandes públicos que nada sabem dos X-Men. Mesmo uma triologia à "Senhor Dos Aneís" (que é o que "X-Men 2" quer fazer de conta de que faz parte, sem ter a coragem de o assumir) não serviria para fazer jus à banda desenhada, porque embora que o universo de Tolkien seja talvez mais bem elaborado (e certamente menos confuso) do que a longa e conflictousa história dos X-Men, nem mesmo a obra desse tão productivo autor se pode comparar à saga desses em termos de volume. Enfim, "X-Men 2" nunca poderia ter sido mais do que um esboço rudimentar daquilo que faz o grupo tão especial, tão fascinante. Uma sombra, uma trivialidade. Tendo isto bem em conta, e notando também a vontade por parte dos produtores de tornar o filme numa enfadonha película de acção, podemos mesmo assim constatar que "X-Men 2" tem os seus altos e baixos.

Altos: A primeira cena de luta com o Nocturno é espectacular; o romance entre a Vampira e o Homem De Gelo (perante o qual estava muito céptico, sendo a Vampira a grande paixão da minha infância e o seu namorado Gambit- que nem sequer aparece no filme- o meu grande ídolo) é giro e tocante; a Tempestade é menos enfadona do que na BD; a idea de incluír várias gerações de mutantes na escola (concepto adaptado do desenho animado "X-Men: Xavier's Academy", que é excelente) é uma forma efectiva de adicionar mais das personagens, e há montes de pequenos detalhes para os fãs do comic notarem.

Baixos: Para além daquilo que já disse- um filme destes nunca poderia captar bem o espírito do livro, as personagens não têm chance para se desenvolver- o fim é completamente catastrófico, incompreensivel para quem nunca leu a B.D. e com um sentimento palpável de pretensão tipo "agora vão TER que fazer mais um filme". A Deathstrike não se parece nada com a personagem, e o que o Wolverine faz com ela nunca teria sido aceite pelos X-Men na versão de B.D. (lembrem-se, a equipa tem dois telepatas.) O Ciclope parece um betinho com aqueles óculos idiotas.