Filosofia & Bolachas



Abaixo com a cultura! Viva o Daniel!


Mandem-Me Mail, Sacanas!
ou então, falem comigo no AOLIM: DivineComedian42 Arquivos
(onde guardo os meus velhos posts)

Livros recentemente lidos:
"Fraeulein Else", Arthur Schnitzler
"The Complete Works Of Oscar Wilde" (em passo lento, em alternância com outras leituras)
"Sermões Escolhidos", Padre António Vieira
"Poesia Lírica", Luís De Camões
"Teatro De Gil Vincente"

Blogs (em língua Portugesa)
A Buzina Do Meu Carro É Ridícula
bisturi
Nocturno '76
bomba inteligente
Diário De Bordo-Inépcia
Filhos de Viriato
O Blog Da Papoila
deslizar no sonho
respirar o mesmo ar
doendes & duentes
sushi com colera
Cá & Lá
Contre Le Sexisme
Levante
Barnabé
Ginger Ale
Blog De Esquerda II

Blogs (em língua Iglesa)
If Then Else
Mental Fog Box
Hipster Detritus
Freezing To Death In The Nuclear Bunker
I Held Her In My Arms
radio free narnia
NYLPM
Sick & Tired Of Watching Shite

Publicações abençoadas com a minha escrita:
Hip-Hop Nation
A Puta Da Subjectividade
CultureDose

Links:
Fórum PTWeblogs
ILX
Seanbaby
X-Entertainment
I HATE MUSIC
Your Favourite Band Sucks
Robert Christgau
Inépcia This page is powered by Blogger. Isn't yours?

domingo, maio 04, 2003
 
Agora, sobre o resto da minha viagem à Terceira:

Saí do avião, passei pela recolha de bagagem (visto que só tinha trazido bagagem de mão), saí pela porta e já estava fora do aeroporto- parece que as medidas de segurança pós-11 de Setembro também já não são o que já foram.

Lá fora estava um dia lindo. Aproximei-me de três senhores idosos que estavam a conversar ao pé dos táxis. "Quer um?" perguntou um deles. Eu disse que sim e pronto, já estava à caminho da pensão.

Do aeroporto à Angra são p'ra aí uns vinte e cinco minutos, de modo que tive muito tempo para apreciar a paisagem. Assim como assim, o tempo estava tão bom que qualquer paisagem teria parecido divina, mas os campos da Terceira devem beneficiar ainda mais de um dia claro do que outros lugares. No fundo, não é muito diferente de S.Miguel- um bocadinho mais plano, um bocadinho mais arboreal, mas nada de radicalmente diferente. Como era feriado, não havia escola, e por isso aparecia de momento em momento um grupinho de jovens, a fazer pique-nique ou a cantar na parte de trás duma carrinha. Mais bucólico impossível.

Uma grande placa ao pé da estrada fazia publicidade para um restaurante local. "A verdade etnográfica e culinária Terceirense". Sim, outros estabelecimentos argumentam que a sua comida é boa ou (para os mais degenerados) deliciosa; na Terceira, argumenta-se apenas que é verdadeira. Isto é filosóficamente admirável; the truth is out there, Scully.

Angra Do Heroísmo em si é uma cidade pequena. Não, não é- Ponta Delgada é uma "cidade pequena" (e quase não chega a isso); Angra é, quanto muito, uma vila. Não que com isto queira dizer que não é um lugar fascinante- as igrejas, principalmente, têm uma beleza admirável e são por vezes muito diferentes das de S.Miguel.

Depois de me ter registrado na minha residência e descansado um pouco no meu quarto, decidi explorar um bocadinho a cidade. Sendo neurótico como sou, é óbvio que não fui longe, mas felizmente a minha residência também estava localizada de modo a que isto não era necessário. Passiei pelo jardim público, que estava a abbarrotar de vida- com uma certa satisfação, notei que já consigo suportar crianças com mais serenidade; continuam a ser irritantes, mas já não sinto aquela vontade de os estrangular violentamente para que se calem.

Como o museu estava fechado, dirigi-me ao obelisco do Alto da Memória, um monumento deveras impressionante. Daquela altura, conseguia-se ver Angra toda, e observar o belo e convidativo mar. Sentí pena de não ter trazido os calções de banho.

O serão foi preenchido pelo concerto do José Mario Branco, do qual já falei.

Mas se este dia me tinha mostrado como é Angra num dia ideal, o dia seguinte mostrou-me como podia ser em condições menos perfeitas- acordei com chuva e vento. Ligei a televisão e constatei que não havia MTV, tirando-me assim tanto a minha única fonte de música (visto não ter trazido o discman) e a minha melhor fonte de fantasias para masturbação. Em vez disso, havia SIC Mulher. Yay.

Ao meio-dia tive que abandonar o hotel. Dirigi-me directamente à loja de discos que tinha avistado no dia anterior. Após revistar um bocadinho as prateleiras, comprei o "This Is Hardcore" dos Pulp; uma colectânea do John Cale para a minha mãe, que é danada pelos Velvet Underground; e um disco de canções de casamento Alemãs, para oferecer ao meu pai como piada.

Iniciei então uma longa busca por um restaurante de jeito; frustrado, finalmente optei por uma snack bar, onde consumí um prego no prato. Será esta a verdade culinária Terceirense? "One looks back at what one hoped to be/and then faces reality"- Lou Reed.

Após vaguear mais um bocado pelas ruas, decidi visitar o museu. Após a usual frustração de tentar explicar à vendedora de bilhetes que eu falo Português e que não é preciso falar comigo em Inglês, comprei um e fui levado por uma guia a ver as peças em exibição.

O museu da Angra costumava ser um convento (percorriam-me memórias da minha escola do 8º e 9º ano, que também tinha sido um em tempos antigos.) Tinha-se portanto que percorrer muitas salas diferentes, explicando a existência dos guias que, diga-se de passagem, para além disso não faziam nada; toda a informação que quisessemos ter sobre as peças tinhamos que a ler nas paredes. De facto, ao observar os guias (e eram vários, que mudavam enquanto nós mudavamos de sala), comecei a suspeitar que o museu contractava pessoas deficientes (não existirá ainda uma palavra melhor para definir pessoas com esses problemas? "Deficientes" é tão feio...) para servirem como guias, uma medida louvável, mas que- por não terem avisado os visitantes antes- dava a tudo um ar um tanto bizarro enquanto ainda não entendiamos bem o que se passava.

Quanto às peças em si, havia lá coisas muito interessantes- as carroças dos tempos antigos eram lindas, porqué é que os carros do nosso tempo não têm estofados como esses?- mas eu mantenho a minha posição de que não importa se, por exemplo, um machado foi feito no século XV, continua a ser um machado e portanto é completamente enfadonho a não ser que o usemos para destruir algo. Mesmo assim, levei o meu tempo a observar cuidadosamente todas os objectos, porque o meu voo só ia partir às 18:50 e eu tinha que me entreter de alguma forma.

Acabada a digressão pelo museu, voltei à loja dos bilhetes e fiquei a observar os livros. Decidi comprar o "Madona" da Natália Correia.

Lá fora o tempo estava miserável. Sentia- me só, abandonado e deveras aborrecido. Já não sabia para onde ir, e a chuva também não estava a ajudar. Olhei para a contra-capa do livro que tinha acabado de comprar- nunca tinha visto a Natália Correia como jovem; "até é bem gira", pensei para comigo. Comecei a ter pensamentos sexistas sobre escritoras, "eu espancava a Florbela" e outras coisas com ainda menos nível. Observando o quão limitada é a contribuição feminina para o canône literário Português, decidi assumir um manto de pseudo-bisexualidade; por fim, constatei que o mais complicado na cama provavelmente seria o Fernando Pessoa. "Um gajo deita-se com o Alberto Caeiro, e acorda com o Alváro De Campos!" meditei "e depois de certeza que não nos deixava dormir- punha-se aos 'é lá ós' e acordava toda a vizinhança". Decidi que o meu tédio estava a assumir porporções perigosas para a minha sáude mental. Voltei ao hotel e esperei pelo meu táxi.

O voo chegou atrasado, e por isso perdi o debate entre a Coluna Infame e o Blog De Esquerda. :(










 
Acabei com a secção de comentários, devido a duas razões:
1- Estava a provocar cáos no código interno do meu blog.
2- Visto que já tenho o mesmo template que o Blog De Esquerda, ter também uma secção de comentários com a mesma cor fez me parecer quase Dâmasiano.

Assim como assim, quem quer entrar em contacto comigo sempre pode mandar me um e-mail, não importa o quão trivial seja o assunto.


sábado, maio 03, 2003
 
Desde o Jorge Palma ao Zeca Medeiros ao meu pai (que costumava actuar em pequenos clubes), já ví muitos artistas versados em criar durante os seus concertos uma atmosfera casual, em quebrar as barreiras que separam o performer do público até o músico parecer (mesmo se for só por alguns instantes) não uma celebridade mas apenas "mais um gajo"; no entanto, nunca senti tanta frustração perante esta técnica de palavreado amistoso com a audiência do que no concerto do José Mario Branco, Quinta-Feira passada no Centro Cultural de Angra Do Heroísmo.

Talvez seja porque ele consegue criar essa atmosfera bem demais. Por mais que se queira pensar de outra forma, um concerto é por definição uma actividade anti-democrática, visto que a audiência só pode comunicar com palmas, gritos e às vezes um ou outro comentário, enquanto que o artista tem tempo e possibilidade de dizer tudo que quer; enfim, uma ditadura moderada. Na maioria das vezes isto não é um problema, mas o José Mario Branco foi tão sincero, tão simpático na sua interacção com o público que realmente de cinco em cinco minutos dava-me o impulso (nunca seguido) de dizer algo, de por-lhe uma questão, e sim, de discordar. Mas José Mario não é só "mais um gajo", e fazê-lo teria sido impossível, porque eu tinha tantas questões, tantos comentários que a música nunca mais teria começado; observem agora que muito provavelmente cada membro do público tinha tantas intervenções a fazer como eu, e entenderão o quão impossivel é a utopia de um concerto em que não existe fronteira entre o músico e a audiência. O José Mario lá esteve a contar as suas estórias, mas nós não podemos responder a esses estímulos; não, isso é completamente impossível.

Sendo portanto impossível estabelecer um diálogo no concerto que permitisse uma troca de ideas, talvez até umas mudanças de atitude perante certos assuntos por parte do artista, apenas restou-nos o José Mario Branco, tal como o conhecemos. Inteligente, é claro. Simpático, para quem gosta dele (e eu gosto.) Cheio de humor e coração. Mas também trágicamente previsivel. Os comentários que ele lançou entre as canções foram espiritousos e engraçados, é certo, mas será que alguém poderá realmente dizer que ficou surpreendido ao ouvir que José Mario Branco estima Brecht, Che Guevara e o 25 de Abril, ou que não gosta do Durão Barroso (o faisão do "Casa Comigo Marta" foi transformado num cherne), do Bush (houve algumas citações dele para ilustrar a sua estupidez, provavelmente falsas- a maioria das frases mais estúpidas atríbuidas à Bush, Clinton ou Gore provêem geralmente da boca de Dan Quayle, vice-presidente do primeiro Bush que deixou um legado de tolice tão gigantesco que chega para todos os outros políticos que alguém queira humiliar) e da TV actual? Um pouco- só um pouco- mais surpreendentes foram os louvores que o cantor deu ao canône poético Português: Antero De Quental e Fernando Pessoa foram mencionados como membros do seu "comité central pessoal". E isto já foi quase deprimente, não porque não tenha razão em louvar esses poetas (deus sabe que eu também adoro Pessoa e respeito Antero), mas porque se o José Mario ainda quer mudar as mentalidades (e tudo na sua atitude faz pensar que isto é o caso), realmente deveria ter o tino para saber que existem melhores estratégias para converter os jovens à sua causa (e sim, houve jovens no concerto- afinal, era à borla e para além disso, que mais é que se pode fazer na Terceira?) do que pregar poetas mortos e embirrar com a televisão. Os jovens portanto ficaram quietinhos nos seus lugares, enquanto os adultos (tudo esquerdistas ferrenhos) soltavam gargalhadas e lesionavam as mãos batendo palmas cada vez que o cantor abria a boca. Cantor de intervenção? Pouca intervenção há numa sala em que já se sabe que todos assim como assim vão concordar com o que o artista tem a dizer.

Mais agradável portanto foram os momentos apolíticos, as cantigas de amor e do dia-a-dia; enfim, os momentos em que não se tinha que provar o fervor revolucionario, em que se podia apenas ouvir um grande músico a cantar sobre coisas tão pessoais que não há sobre elas consenso, ou então há o completo e natural.

E, que não nos esqueçamos disso, há também aquela voz, aquela nobre e maravilhosa voz, a qual a idade não pôde enfraquecer. Por mais que a atmosfera geral na sala cheirasse a estagnação e redundância, a música conseguio ultrapassar isto tudo: apenas três canções do "Mudam-Se Os Tempos, Mudam-Se As Vontades" (todas elas saudadas com um aplauso estrondoroso), nenhuma do "Margem De Certa Maneira", mas ninguém sentiu falta. Apesar de só ter tido neste concerto à sua disposição uma viola acústica, permaneceu bem presente aquilo que sempre fez o José Mario Branco distinguir-se da maioria dos cantores de intervenção- o facto de ele, para além da polítca e da ideologia, também ter estudado a música, de saber tanto sobre como fazer uma boa melodia como sobre retórica.

Por entre as piadas e o palavreado, a interacção divertida com o público e a cómica frustração com a maldita viola que estava sempre a desafinar, o ponto alto do serão foi sem dúvida a interpretação de "Queixa Das Almas Jovens Censuradas", a velha canção de marca do artista. Mudaram-se os tempos, mudaram-se as vontades, mas não mudou a convicção deste cantor, não mudaram as lembranças amargas de quem cresceu nos tempos horrendos do Salazarismo. A canção fez me tremer com emoção, apesar da minha jovem idade não me permitir ter a mínima noção de como deve ter sido na verdade a vida nesses tempos, de não poder nem imaginar quais os sentimentos de revolta que levaram Natália Correia a escrever o poema e José Mario Branco a adaptá-lo.

O momento mais emocionante do concerto foi também o momento mais distante. E ainda dizem que a ironia está morta.





quarta-feira, abril 30, 2003
 
"Lembro-me daquela vez que me disseste
'O amor é tocar almas'
Tenho a certeza de que tocaste a minha
Porque um bocadinho de ti saí de mim
Nestas linhas de tempo em tempo"
- "A Case Of You", Joni Mitchell (traduzido por Daniel S. Reifferscheid

Quando estamos mesmo bem apaixonados (ou obcecados, e bem sei que a fronteira entre as duas coisas é bem dificil de definir) por uma pessoa, o nosso ser é tão absorvido por ele ou ela que às vezes o nosso subconsciente faz com que em alguns momentos imitemos certos tiques, certas manias da outra pessoa. Por isso, foi com uma mistura de prazer e de terror que me dei conta de que, ao arrumar as minhas coisas no fim da aula de Português, eu estava a abanar ligeiramente a minha cabeça e a dar aqueles risos um bocadinho patetas- e por isso mesmo ainda mais adoráveis- que eu notei serem caracteristicos de W quando ela está contente.

(Mas quem é W? Não se preocupem, não é nenhuma de vocês. W tem mais do que fazer do que estar a ler blogs alheios, e eu também não daria o link à W. Se vocês derem o link à W, mato-vos. Quem quer que ela seja. Ou algo do género.)

Amanhã parto para uma curta viagem à Terceira, para ir ver um concerto do José Mario Branco, universalmente aclamdo pela crítica como um dos grandes mestres da música Portuguesa, mas inexplicavelmente menos bem conhecido do que, digamos, Zeca Afonso ou Sérgio Godinho. Se tudo correr bem, estarei de volta à tempo de assistir ao debate entre A Coluna Infame e o Blog De Esquerda em Ponta Delgada, no Hotel Do Colégio.





segunda-feira, abril 28, 2003
 
...alguém pode me explicar a razão de existência da Cine XL? A sério.