Filosofia & Bolachas



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domingo, março 23, 2003
 
Apesar de não ser um grande fã de Spielberg, gostei bastante de Apanha-Me Se Puderes. É um filme vivo, cómico, excitante, e por baixo de toda essa excitação está um lado negro que impede que o filme se torne frívolo. Pouco espanta que Leonardo DiCaprio faz bem o papel de sacana prematuro, é claro, e o novo "modelo cínico" do Tom Hanks (ver tambêm: Road To Perdition) é uma boa mudança de direcção para o actor. Recomendo vivamente.

Quando fui para casa de táxi o preço final era de 13.44. Eu só tinha 12 euros; disse ao taxista que ia buscar o resto à casa, mas ele disse para deixar estar. São pequenas simpatias destas que exemplificam magnificamente o bem que existe em viver em meios pacatos, campestres. E tambêm exemplificam as coisas de que vou sentir falta quando sair de S.Miguel (outra coisa: a imensa paz interior que sinto quando passeio por Ponta Delgada ao luar.)


 
Não consigo parar de tocar a canção "No Children" dos Mountain Goats. O piano é lindo, e a letra é talvez a melhor disserção daquele sentimento que Edgar Allan Poe (autor que me tem ocupado bastante a mente- acabei de ler a sua Selecção De Contos na edição Penguin Classics, estou completamente apaixonado pelo seu estilo e pela sua criatividade) chamou de "impulso à perversão"; a vontade do Homem de se entregar à auto-sabotagem, à auto-destruição, não por qualquer sentido de hedonismo ou para esquecer qualquer mágoa sua, mas simplesmente porque sabe que não o deve fazer. Poe infelizmente não soube controlar este impulso, e morreu arruinado e alcoólico; John Darnielle felizmente parece ter uma vida e um casamento feliz, pelo menos pelo que se pode ver nos seus posts ao forúm ILX

Sem Crianças
Dos Mountain Goats/escrito por John Darnielle
(Traduzido por Daniel S. Reifferscheid)

Espero que os poucos amigos que nós restam
Desistam de tentar salvar-nos
Espero que consiguemos arranjar um bom plano
Para nós livrar dos poucos parvos que nós deram o seu perdão
Espero que as cercas que reparámos
Caíam sob o seu próprio peso
E espero que nos aguentemos para além da última saída
Espero que já seja tarde demais

E espero que o ferro velho aqui perto
Um dia seja consumido por chamas
E espero que o fumo negro me leve para longe daqui
E que eu nunca volte para esta cidade
Em toda a minha vida

Espero que eu minta
E diga à todos que foste uma boa esposa
E espero que morras
Espero que morramos ambos

Espero que me corte amanhã ao barbear-me
Espero que sangre o dia todo
Os nossos amigos dizem que a hora mais escura é antes do amanhecer
Nós temos a certeza quase absoluta de que estão errados
Espero que continue para sempre escuro
Espero que o pior ainda não tenha passado
E espero que pisques os olhos antes que eu o faça
E espero que eu nunca fique sóbrio

E eu espero que quando penses em mim daqui há uns anos
Não encontres uma coisa boa sequer a dizer sobre mim
E espero que se eu alguma vez conseguisse reunir a coragem para ir-me embora
Ficasses longe de mim

Estou a afogar-me
Não há sinal de terra à vista
E tu vais-te afundar comigo
Mão em mão, incapazes de sermos amados
E espero que morras
Espero que morramos ambos



sábado, março 22, 2003
 
Fui ao protesto anti-guerra em Ponta Delgada. Visto que a minha posição não é tão radical como a da maioria dos protestadores (sou contra a actual acção dos E.U.A. mas não teria recusado completamente uma intervenção militar no quadro das nações unidas; é claro que isto agora é tudo académico, mas as diferenças persistem), já estava à espera de me sentir alienado com as suas acções (hahaha, como se eu alguma vez pudesse estar num grupo sem me sentir alienado!) A verdade é que houve uns hippie-ismos pouco atractivos (odeio quando trazem crianças aos protestos- ví bem que elas se estavam a divertir imenso, e que é sempre uma boa técnica para ganhar simpatia por parte do público, mas mesmo assim, para mim continua a ter o teor de manipulação emocional), e um foco demasiado na questão do petróleo (se Bush apenas vai à guerra por causa disso, não teremos que admitir que Chiraq apenas tentou impedir-lá por ganância tambêm?), mas tendo tudo isto em conta as coisas correram razoavelmente bem. Podiam ter vindo mais pessoas (especialmente com um tempo tão belo como o que fez hoje), mas tambêm podiam ter vindo menos. De qualquer forma foi bastante lisonjeador ver doze (12) polícias a proteger a embaixada Americana dos cerca de 30-40 protestadores. Como disse uma amiga minha quando tentou explicar a situação à uma criança: "estão lá porque isso é a embaixada Americana, e por isso têm medo que alguêm vá fazer algo de mal, e....estão lá porque são tolos".

Mudando de assunto: alguêm me pode explicar esta porcaria dos toques? Desde que tenho telemóvel (resistí o maior tempo possível, até notar que as pessoas simplesmente já não me telefonavam porque não tinha telemóvel- afinal, telefonar à casa é tão maçador...) fui catapultado para um mundo cujas nuances são excessivamente sofisticadas para o meu intelecto. Só há pouco tempo é que aprendi que um toque pode não somente significar "estou sem dinheiro, liga-me", como pode tambêm ter o significado de "olá, estou a ligar para ti só pelo gozo que isto dá, não é necessário que me telefones". De certa forma, esta segunda opção tem algo de simpático (uma forma de dar um curto "olá" mesmo quando não se está em contacto físico), mas desconfio que no fundo a mensagem é menos essa do que "olá, eu gosto de tocar em botões".





quarta-feira, março 19, 2003
 
"Stand By Me", na versão do John Lennon. Na rádio, a caminho de casa, depois de mais um boletim informático sobre a guerra que está prestes a acontecer.

Não se vê muito bom gosto no arranjo, e é óbvio que a fraca voz de John Lennon não consegue transmitir a mensagem da canção com a força do Ben E. King. Mas é uma letra mais realista do que "Imagine", por virtude de ser mais simples; e na frágil voz de Lennon, ouve-se bem a alma de um homem que, é certo, era um tanto vaidoso e, é certo, tinha umas opiniões políticas extremamente ingenuoas, mas que tinha tambêm um enorme amor pela raça humana e uma enorme crênça na paz.

When the night has come
And the land is dark
And the moon is the only light we'll see,
No, I won't be afraid,
No, I won't be afraid,
Just as long as you stand,
Stand by me.

So darling, darling,
Stand by me.
Oh, stand by me.
Oh, stand,
Stand by me,
Stand by me.

If the sky that we look upon
Should tumble and fall
Or the mountains should crumble to the sea,
I won't cry, I won't cry,
No, I won't shed a tear,
Just as long as you stand,
Stand by me.

And darling, darling,
Stand by me.
Oh, stand by me.
Oh, stand now,
Stand by me,
Stand by me.

So darling, darling,
Stand by me.
Oh, stand by me.
Oh, stand,
Stand by me,
Stand by me.



 
Poucas coisas me confundem tanto como um membro do sexo feminino que não quer ser chamado de "miúda" ou "rapariga".

Dizem que é sexismo. Não é nada. Sim, admito que termos desses contribuem para a "girificação" das mulheres; admito tambêm que eu próprio não tenho nada contra isso. Sim, penso em "miúdas" em termos de seres giros, engraçados, imprevisíveis, geralmente com uma capacidade de empatia superior à dos membros do sexo masculino e quase sempre com a capacidade de me pôr um sorriso idiota na cara. E isto não quer dizer que não as vejo como seres iguais, nem que me sinta "intimdado" por mulheres fortes, inteligentes e independentes. Apenas acho que uma pessoa pode ter todas essas qualidades e mesmo assim ser gira ("gira" aqui não no sentido físico- longe estou de querer impôr um regime de beleza a qualquer pessoa, nem todos podemos ser tão sexy como eu- mas como estado de mente; uma atitude doçe, amalucada.) Alías, "forte" é algo que todas as mulheres têm obrigatóriamente de ser num mundo tão machista como este; a inteligência é uma qualidade que sempre admiro, independentemente do sexo de quem a possuí; e a independência é quase uma obrigação, visto que qualquer pessoa que se fie em mim para conseguir qualquer coisa está numa situação bastante desesperada. Não, não, eu sou completamente a favor da emancipação feminina em todas as áreas da sociedade, e não tenho o mínimo problema em encarar as mulheres como seres iguais; de muitas formas, são até superiores. Mas porquê é que miúdas de 17 anos têm que dizer "não me chames rapariga, eu sou mulher?"

Ah, antes que me esqueça, isto aplica-se é claro a ambos os sexos; gosto de ser saudado com um alegre "ei, rapaz!" pelas minhas amigas, e quando me tratam por "homem" fico desorientado. Homem, eu? Deus me livre! Eu tenho uma colecção de Banda Desenhada imensa; eu não perco um episódio das Powerpuff Girls; eu adoro grupos como os Television Personalities, o Syd Barret e as Lollies; eu como no McDonalds sempre que vou em viagens (aqui não há); metade das conversas que tenho com os meus amigos giram à volta do Senhor Dos Anéis, de velhos episódios das Tartarugas Ninja, e de velhos jogos para a Mega Drive; e a minha colecção de t-shirts incluí uma com um desenho da Willow de Buffy- A Caçadora De Vampiros. Homem? Eu sou rapaz, e vou lutar para o ser pelo maior tempo possível, o que não quer dizer que não tenho coragem ou convicções ou sentido de responsabilidade e todas essas coisas que as pessoas associam com os "crescidos"- apenas não vejo porquê estas qualidades têm que tirar todo o gozo à vida.

Talvez um dia chegue o tempo em que me quiera considerar "homem", masculino e orgulhoso, e todas as minhas amigas sejam "mulheres", altivas e solenes. Mas não faz sentido ter pressa para que este momento chegue; por enquanto, porquê é que não podemos estar completamente seguros na nossa sexualidade masculina ou feminina, independentes e responsáveis, como rapazes e miúdas? Não sejam desmancha-prazeres!


terça-feira, março 18, 2003
 
Nunca gostei dos N'Sync e, "Back For Good" à parte, nunca gostei dos Take That. Digo até mais: a era em que o escritor Max Martin e os seus imitadores eram os reis da música popular foi para mim um dos tempos mais horríveis na história da música Pop. Não nego que o Sueco Martin tenha tido os seus momentos de glória, mas a grande maioria das canções que compôs eram simplesmente demasiado empenhadas em agradar, demasiado sorridentes, demasiado simpáticas; uma canção com o nível de paranóia de "Baby One More Time" era a excepção, não a regra. Isso, combinado com a falta de carisma dos vocalistas da era, não permitia ao Pop mainstream passar além do nível de açucar digital. Unidimensional, barato, e infelizmente com demasiado "bom gosto" para transformar esses negativos em positivos.

São questões de gosto, óbviamente, e o meu entra muito mais em acordo com o clima degenerado e perverso da música actual. "Cry Me A River" de Justin Timberlake é uma canção verdadeiramente maléfica, com veneno a cair de cada linha proferida por Timberlake no seu falsetto (que obviamente é uma imitação de Michael Jackson, mas M.J. nunca demonstrou personalidade e sexualidade suficiente para fazer uma canção como "Cry Me A River".) Timbaland (que tambêm produz artistas como a Missy Elliot e- R.I.P.- Aaliyah) continua a ser um dos grandes maestros da música moderna, organizando para a canção um mix profundo e letal de batidas e violinos.

"Feel" de Robbie Williams não têm o mesmo nível de produção- a atmosfera é de uma canção de rádio mundana, com apenas uma linha de piano estilo House a atraír a nossa atenção. Mas este tédio é estranhamente apropriado para "Feel", canção essa que se poderá definir como sendo o som de um homem a decidir que o mundo não contêm nada que valha a pena. O cinismo foi sempre a melhor musa de Williams ("Millenium"- a celebração alegre do Apocalipse; "Somethin' Stupid"- a nostalgia pelos tempos de Sinatra, o maior cínico de todos), mas aqui ele chega a um novo nível de desilusão- o nojo (por si e pelos outros) é tanto que já nem a ironia lhe pode ajudar. Em "Angels", o maior egomaníaco do Pop Britânico (título mui dificil de conquistar num país onde vivem pessoas como Liam Galhager) ainda tinha pelo menos uma crênça no poder redentivo do amor (se bem que tinha mais interesse em ser amado do que em amar.) Aqui, ele graceja o coro de "I just wanna feel real love" com um desdêm incomparável, como se estivesse a fazer pouco das frases feitas que é obrigado a cantar- mas não é uma piada alegre, é um humor negro e funesto. De facto, não é o coro que nós fica na cabeça, mas sim uma outra linha da canção, entregue por Robbie com um à-vontade nocivo: "I don't want to die/But I'm not keen on living, either".

Mas quêm é que precisa de Mogwai ou Craddle Of Filth? Todo o terror que a mente humana pode aguentar está facilmente disponível na MTV.


segunda-feira, março 17, 2003
 
A escola acabou cedo hoje e por isso eu estava a passar uns minutos a passear pela cidade. Passei por um senhor idoso- obviamente estrangeiro, provavelmente um turista Sueco, se bem que tambêm poderia ter sido Britânico- e deveras, o seu comportamento, apressado, desorientado, com um olhar quase pânico, dava uma excelente análogia para a situação do povo Britânico, arrastado para uma guerra a favor da qual apenas está 19% da população. Apressei me a definir-lo na minha mente como Britânico, visto que um simbolismo desses não ocorre todos os dias, e isso apenas fez com que me sentisse pior do que já estava.

Falo outra vez da guerra, não porque quero, mas porque é inescapável. Estava na rádio no caminho para a escola; estava nas palavras dos meus colegas, alguns dos quais temem não uma intervenção no Iraque mas sim uma 3ª guerra mundial (pouco provável, mas como explicar isso à eles?), e acompanhava me agora no meu solitário e neurótico passeio. O vento soprava na minha face, de uma forma forte o suficiente para incomodar mas fraca demais para limpar a minha cabeça dos pensamentos que nela corriam; de vez em quando, avistava um dos cartazes do BE com o Durrão Barroso em figura de Uncle Sam. Passei pela embaixada Americana- estavam dois polícias a vigiar-la. Todos as faces pelas quais passava eram de tristeza, de frustração. Havia um imenso sentimento de tensão no ar, um abafo quase insuportável.

Porquê esta atmosfera? Não era de certeza apenas por causa da guerra- tudo que pode decorrer dessa é a perda de imensas vidas Americanas e Iraquianas, o que é certamente lamentável, mas não o suficiente para incomodar assim tanto a rotina de uma pacata ilha longe de tudo. As consequências indirectas do conflicto (dissolução da ONU, divisão da União Europeia, etc.?) Questões demasiado políticas para pertubarem realmente a maioria das pessoas.

Tive a tentação de associar este clima sórdido a uma especie de instincto geral, um presságio colectivo de que algo de ainda pior está prestes a acontecer. Mas não sou uma pessoa suficientemente mística para aceitar uma explicação dessas- e decidi, finalmente, que o que eu estava a sentir não era mais senão as frustrações e medos pessoais e privadas de cada indivíduo, tornadas mais visíveis pela projecção em algo grande e impessoal como a possibilidade de guerra. Não foi uma conclusão muito reconfortante.

Agora estou em casa e, rodeado pela paz e sossego da Caloura, estes sentimentos estão começando a se desvanecer. Vou passar as próximas horas a distraír-me com boa música e bons livros; antes de o dia acabar, todos saberemos o que nós espera.