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domingo, março 09, 2003
 
Sou tolerante demais. De certeza que todos que me conhecem pessoalmente vão-se partir a rir com a frase que acabei de proferir, mas é verdade. O facto que um filme tão repreensível como Steal- Simplesmente Radicais não suscita em mim um grande ódio, e até consege me fornecer alguns minutos de prazer genuíno, é deveras preocupante.

Steal é a história de um bando de criminosos que executam roubos mais e mais espectaculares, não por ganância ou qualquer motivo ideológico, mas simplesmente pela emoção que isto dá- o dinheiro é apenas um bónus. Havia um tempo em que chamávamos a este tipo de pessoas "psícopatas", mas aparentemente hoje em dia são "heróis". Tal como no recente filme de Vin Diesel, xXx (que é ainda pior do que Steal, se é que isto é possível), associa-se o quebrar a lei à cultura dos extreme sports e etc. Talvez para fazer o crime parecer mais alucinante e menos sinistro, talvez para fazer os desportos radicais parecerem menos palermas. Sabe-se lá.

Slim (Stephen Dorff ) é o líder deste gang e o suposto "herói" da história, se bem que, com a sua atitude arrogante e machista, ele faz todos os possiveis para o odiarmos. Juntamente com a sua namorada Alex (Natasha Hensridge) e os dois comparsas Otis e Franck, ele formula planos incríveis e põe-los em acção de moda exuberante. Nunca se consegue bem entender a que nível estão afinal esses "amadores"- por um lado completam os seus planos de forma exacta e magnífica, por outro são identificados não só por outros criminosos mas tambêm pela polícia quase no início do filme, o que demonstra já uma certa falta de professionalismo.

Mais engraçado é a tentativa desesperada do filme de parecer P.C., politicamente correcto. O vilão principal (chefe da polícia) actua com um machismo exagerado, de tal forma que na vida real o seu comportamento não teria chegado longe sem levar pelo menos um processo por assédio sexual na cabeça; isto serve para nos distraír do facto de que o personagem principal engana a sua namorada com outra e gosta de beijar as suas réfens na boca. Assim, os "chavalos" apaixonados pelos filmes de acção podem mostrar às suas namoradas que estão do lado dos bons e à favor da emancipação feminina vaiando a caricatura "macho" do vilão, enquanto que secretamente vibram com as atitudes machistas (muito mais realistas) do herói. Quando aparece um outro vilão que adora expôr comportamentos altamente racistas, já estava à espera que isto serviria como disfarce para eventuais atitudes racistas por parte dos heróis; mas de facto, Steal pode ser muitas coisas, mas não é um filme racista- o único personagem negro é um dos bons, e nem sequer morre no fim.

É claro que ninguêm vê filmes destes por causa do excelento elenco de actores ou por causa do sofisticado argumento; o que importa são as cenas de acção. Visto com esses olhos, este é um filme rázoavel; há algumas cenas impressionantes, mas grande parte do filme tenta fazer com que pensemos que um carro a bater violentemente noutro é algo que nunca vimos antes.

Quanto mais tempo se vê o filme, mais se começa a estar do lado dos "maus"; podem ser sádicos e doentes mentais, mas ao menos têem estilo, algo que falta completamente ao pequeno grupo pseudo-anárquico de Slim. Mas de certa forma estou a ser injusto; mesmo se o personagem principal não fosse tão violentamente convencido e sexista, provavelmente não teriamos grandes chances de ficar a gostar dele, visto que o argumentista de Steal foi sublimamente preguiçoso no que diz respeito ao desenvolvimento das personagems. Mesmo quando Alex morre, os personagems apenas têm uma cena ou duas para digerir este facto antes de continuarem a lutar (e de Slim retomar o seu interesse na outra.)

Mas eu gosto de filmes como Steal; apelam à desejos da mente humana tão patéticos que chegam a ser simpáticos. E para além disso, de certeza que os milionários falhados do boom dos dotcoms realmente precisam de um filme que os deixe pensar que o mundo ainda é oferecido de bandeja a jovens sacanas que consideram o hendonismo a única virtude e apertar o rabo da namorada um acto pós-moderno.






 
É estranho como certas coisas sobrevivem.

Lembro-me bem dessas BDs do Tex e afins, antigos artefactos republicados pela milésima vez e postos nas prateleiras de banda desenhada. Quando eu era criança, nunca tive o mínimo interesse nelas- sempre as negligenciei em favor do Mickey e do Donald, mais tarde do Batman e do Homem Aranha. De facto, nem sequer entendia como é que essas publicações conseguiam subsistir; as histórias eram sempre republicações de originais escritos nos anos '50, ou seja, as aventuras não podiam fornecer quaisquers supresas, uma vez que não existe material novo; os temas eram patéticamente antigos (que míudo da minha idade teria o menor interesse por cowboys? E qual era a atracção do Fantasma num mundo em que existiam Batman, Power Rangers e Tartarugas Ninja?), e não havia o mínimo suporte a nivel de marketing- não se podia comprar action figures do Tex, não havia estojos do Mandrake, o Fantasma não tinha o seu próprio jogo de Mega Drive.

Bem, as pessoas mudam. Recentemente, tenho notado na tabacaria uma série chamada "Heróis Inesquecíveis" que republica velhas aventuras de Mandrake, Tex, etc.; e como um dos traços que mais definem a minha personalidade é o meu fascínio por tudo que é velho, não importa o quanto possa ser rídiculo ou foleiro, tenho comprado assíduamente estes pequenos "pacotes".

E de facto, são fascinantes: os diferentes estilos de desenho são obviamente de extrema importância para qualquer históriador da BD, mas o que os faz estas aventuras mais divertidas são os seus enredos completamente absurdos. O público da altura consistia quase completamente de crianças, e para além disto nesse tempo (uma era em que ainda ninguêm tinha ouvido falar de Dennis O' Neil, quanto mais Frank Miller ou Alan Moore) ainda se entendia que comics = cómico. Combinem isto com o facto de os autores de altura trabalharem sob um enorme stress para produzir o mais que podiam (sim, pois eram considerados operários, não artistas), e o resultado são enredos que atingem todo um novo nível do absurdo. Falemos por exemplo da edição nº5, no qual o aventureiro Jonny Hazard procura um milhão de dólares deixados por um marinheiro falecido. Durante a história, ficamos a saber que este marinheiro dividiu o milhão em três partes e deu essas partes à três raparigas diferentes, todas das quais vivem em portos de países exôticos. Agora, entendam bem: quando eu digo que o fulano dividiu o milhâo em três partes, não quero com isto dizer que cada uma das mulheres ficou com um terço da sua fortuna; não, ele literalmente cortou o maço de notas que possuía em três partes e entregou essas partes às suas cúmplices, sendo assim cada parte inútil sem as outras duas! Um enredo destes já passa do mal concebido para algo mais, já tem a glória de um surrealismo extremo. E, é claro, um enredo desses nunca se encontraria numa BD da actualidade, o que, de certa forma, é uma pena.



sábado, março 08, 2003
 
Cá vem algo que começou no forúm I Love Music e que têm sido muito moda nos blogs de música Anglófonos: uma lista dos meus álbuns preferidos por ano, começando em 1963 e indo até a actualidade:

1963- “Live At The Appolo”, James Brown
1964- “The Times They Are A Changing”, Bob Dylan
1965- “Rubber Soul”, The Beatles
1966- “Freak Out!”, The Mothers Of Invention
1967- “I Never Loved A Man The Way I Love You”, Aretha Franklin
1968- “Astral Weeks”, Van Morrison
1969- “The Velvet Underground”, The Velvet Underground
1970- “Paranoid”, Black Sabbath
1971- “Blue”, Joni Mitchell
1972- “Talking Book”, Stevie Wonder
1973- “Innervisions”, Stevie Wonder
1974- “I Want To See The Bright Lights Tonight”, Richard & Linda Thompson
1975- “Blood On The Tracks”, Bob Dylan
1976- “Ramones”, The Ramones
1977- “The Clash”, The Clash
1978- “Darkness On The Edge Of Town”, Bruce Springsteen & The E Street Band
1979- “London Calling”, The Clash
1980- “Sadinista!”, The Clash
1981- ??????
1982- “Nebraska”, Bruce Springsteen
1983- “Murmur”, R.E.M. *
1984- “The Smiths”, The Smiths
1985- “Meat Is Murder”, The Smiths *
1986- “The Queen Is Dead”, The Smiths
1987- “Sign Of The Times”, Prince
1988- “Nothing’s Shocking”, Jane’s Addiction
1989- “It Takes A Nation Of Millions To Hold Us Back”, Public Enemy
1990- “Fear Of A Black Planet”, Public Enemy
1991- “Nevermind”, Nirvana
1992- “Automatic For The People”, R.E.M.
1993- “Vs”, Pearl Jam *
1994- “I Let Love In”, Nick Cave & The Bad Seeds
1995- “Only Built 4 Cuban Linx”, Raekwon
1996- “Sheryl Crow”, Sheryl Crow
1997- “Time Out Of Mind”, Bob Dylan
1998- “Mutations”, Beck
1999- “13”, Blur
2000- “Heartbreaker”, Ryan Adams
2001- “All About Chemistry”, Semisonic
2002- “Original Pirate Material”, The Streets
2003- “Beauty Party”, The Majesticons (por enquanto)

(Um * indica que eu nem sequer gosto assim tanto do álbum referido, mas é o melhor que tenho desse ano. Como podem ver, o meu gosto não é lá muito virado para os anos '80- simplesmente não encontrei um álbum sequer de 1981 que eu tolere o suficiente para o incluír nesta lista.)




sexta-feira, março 07, 2003
 
A música Jamaicana é um mundo que vale bem a pena explorar, tanto por causa da sua qualidade como pela imensidão de material disponivel. Facto: a Jamaica gasta, por ano, mais material para a produção de CDs do que qualquer outro país (incluíndo os E.U.A.) Outro facto: houve um tempo em que cerca de 50% da população Jamaicana trabalhava de alguma forma no negócio da música, seja como cantor, produtor ou músico. Isto só para vos dar uma idea de quão rico este país é no que diz respeito à música, e da riqueza ainda maior da sua história musical. Não falo mal do Bob Marley, rei do Reggae e bem-merecido ícone mundial. mas é uma pena que não sejam mais conhecidos outros artistas da história da música Jamaicana, como Burning Spear, Prince Buster, Yellowman ou Gregory Isaacs.

Uma das minhas canções Jamaicanas preferidas (não digo Reggae porque não é bem deste estilo; localiza-se mais ou menos na época de passagem entre o Ska, estilo frenético da Jamaica dos anos '60, e os ritmos mais lentos e profundos do Reggae) é "54 46 (That's My Number)" de Toots & The Maytalls. Poucas canções à face da terra conseguem albregar tanta dor e tanta tristeza debaixo de uma superficie tão agradavel e tão feliz.

No inicio da canção o protagonista encontra-se a practicar um assalto a mão armada- "Stick 'em up mister/do what I say, Sir/put your hands on your head Sir/and you will get no hurt, mister"1

Por causa deste delicto, o cantor vai parar à cadeia, onde se têm que confrontar com o director:

"He said 'what's your number?'
I don't answer
He said 'what's your number, son?'
I don't answer
He said 'WHAT'S YOUR NUMBER??'2

E o cantor cede, cantando com uma resignação que para os ouvintes casuais (e não há nada de mal em ser-se um) pode bem passar como alegria: "54-46, that's my number"3 A história da deshumanização por parte das instituições não é nada de novo ("Sou um homem, não um número!" e tudo isto), mas quando aparece de uma forma tão casual, e mais importantemente tão pessoal (liberta de quaisquers pretensôes a crítica social ou qualquer coisa do género) como é o caso nesta canção apresentada por Toots Hibbert (que fala por experiência, tendo já passado bastante tempo na cadeia por ter fumado marijuana), continua a ter um aspecto devastador.

E, de repente, o cantor é liberto da prisão e devolvido à liberdade. A alegria que sente por causa disto é tão imensa que nem sequer a pode expressar por palavras, e em vez disto vai tirilando uma melodia como se fosse outra vez criança.

Mas no que é que a canção acaba? "Stick 'em up, mister/put your hands on your head, Sir..." A prisão serviu para o humiliar e o fazer desesperar, mas não para o mudar; enquanto a canção acaba, o cantor continua preso num ciclo vicioso, do qual provavelmente nunca irá escapar.

1- "Senhor, ponha as mãos no ar/oiça o que eu digo/ponha as mãos contra a cabeça/e não lhe vai acontecer nada"

2- "Ele disse 'qual é o teu número?'
Eu não respondi
Ele disse 'qual é o teu número, jovem?'
Eu não respondi
Ele gritou ´QUAL É O TEU NÚMERO??'

3- "54-46 é o meu número"



quinta-feira, março 06, 2003
 
Ontem esteve um belo dia e por isso eu fui ao porto para ler um bocadinho (ler ao pé do mar é uma das minhas duas actividades pseudo-profundas favoritas; a outra é dar passeios solitários pela cidade depois de sair do cinema.) No entanto, distraí-me a observar as gaivotas.

As gaivotas não são normalmente consideradas os animais mais nobres à face da terra; de facto, em desenhos animados são normalmente usadas como suporte cómico, tipo este aqui:



Mas na vida real as gaivotas têem pouco de cómico; voam com uma elegância incrível, e a forma como flutuam na água, totalmente calmas até quando o mar se encontra bastante bravo, é deveras impressionante. Eu sei que o que eu estou prestes a dizer é uma frase feita (alías, parece que este blog só é feito de frases feitas), mas há que saber apreciar a natureza, em todas as suas formas; a vida moderna não deixa muito tempo para isto, e o mundo moderno não parece querer deixar muito tempo à natureza em geral.


segunda-feira, março 03, 2003
 
Morreu Hank Ballard.

O nome provavelmente não vos diz nada. Mas talvez alguns de vocês saibam o que é o "Twist", aquela dança do início dos anos '60 que aparece muito em filmes velhos e que incluí um passo em que se faz de conta que se está a limpar as costas com uma toalha enquanto se apaga um cigarro com o pé direito. Hank Ballard compôs a canção "The Twist", que deu origem à essa dança, e com o seu grupo The Midnighters fez a primeira versão dessa mesma canção. Mas a grande tragédia é que, se perguntamos a alguma pessoa que foi jovem na altura em que essa dança estava na moda qual o nome que associaria ao Twist, o mais provável é que esta pessoa mencionaria não o nome de Hank Ballard, mas sim o de Chubby Checker.

É que na altura em que Hank Ballard e os Midnighters lançaram "The Twist", as grandes companhias de discos tinham o hâbito de pegar em sucessos da música negra e re-gravar los em versão bastante diluída, normalmente feita por intérpretes brancos (como é o caso da versão do "Tutti Frutti" do Pat Boone.) Visto que as grandes companhias tinham mais dinheiro para gastar na promoção de um disco, bem como mais apoio por parte dos média, estas versões inferiores geralmente vendiam muito melhor do que os originais, transformando assim uma cambada de "meninos bonitos" de talento marginal em estrelas, enquanto os artistas que realmente escreviam e/ou lançaram a versão original desses êxitos ficavam a chupar no dedo.

Chubby Checker não é branco, mas desempenhou um papel semelhante: bonitinho, sempre bem vestido e nem minimamente controverso, Chubby levou a sua versão de "The Twist" até às regiões mais altas das tabelas de vendas. Hank Ballard simplesmente não era fácil de levar ao mercado: demasiado adulto, demasiado perigoso, muitas das letras das suas canções tinham textos explicitamente sexuais. E foi assim que o palerma do Chubby, com a sua voz de rã (mas sem a energia de um Clarence "Frogman" Henry, esteja bem claro!) e o seu ego de gigante, conseguio ganhar uma fortuna atravês de "The Twist" e das suas inúmeras sequelas ("Let's Twist Again", "Slow Twistin'", "Twist It Up", etc.), enquanto Hank Ballard permaneceu um desconhecido, apreciado apenas pelo público negro e por alguns poucos que estavam "dentro" da cena da música R&B.

A própria música "The Twist", na minha opinião, não é grande coisa; de facto, Hank e os seus Midniters fizeram discos muito melhores. Eu recomendo o energético "Finger Poppin' Time" e o sugestivo "Work With Me, Annie".

Felizmente, a História tem o hâbito de revelar quase sempre os verdadeiros talentos- por entre os fãs dos clássicos R&B, Hank Ballard é hoje considerado um grande nome, e até foi introduzido na Rock & Roll Hall Of Fame (se bem que isto não é dizer muito, se consideramos quantos são os grupos horríveis que são homenageados nesta mesma sala.) Twist on, Hank.